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Monteiro Lobato e a origem de Jeca Tatu

Por: Ana Palma

Prolongamento das campanhas sanitárias, as expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz, no início do século 20, permitiram um maior conhecimento das moléstias que assolavam o país e possibilitaram a ocupação e a integração do interior brasileiro.

O Brasil é um país doente, diziam os pesquisadores de Manguinhos. E provavam. O retrato sem retoques da miséria, da desnutrição e das moléstias de nosso povo vinha jogar por terra o idealismo romântico de nossos intelectuais, influenciando o movimento realista que surgia.

Essa influência se fez sentir em maior grau em Monteiro Lobato. Seu contato com as pesquisas de Manguinhos, principalmente os trabalhos de Belisário Pena e Arthur Neiva, levaram o criador de Emília a alterar completamente a concepção de um de seus famosos personagens, o Jeca Tatu, e engajar-se numa campanha pelo saneamento do país.

 "O Jeca não é assim: está assim"

Jovem promotor mal remunerado, Monteiro Lobato resolveu tornar-se fazendeiro ao herdar terras de seu avô. Em fins de 1914, uma seca terrível assolava a região. O problema era agravado pelas queimadas; Lobato, indignado, descobriu que não podia punir os incendiários, "pois eleitor da roça, naqueles tempos, em paga da fidelidade partidária, gozava do direito de queimar o mato próprio e o alheio."

Escreveu então uma carta de protesto ao jornal O Estado de S. Paulo. Tal era a qualidade do texto que o jornal decidiu publicá-lo com destaque, sob o título A velha praga.

"Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização..."

Foi pouca a repercussão do primeiro artigo, mas Lobato, apaixonado pelo tema, voltou a abordá-lo em um segundo texto, Urupês, publicado a 23 de dezembro do mesmo ano. Foi esse texto que transformou o fazendeiro improvisado no escritor e polemista de renome nacional.

Com enorme virulência, Lobato atacou o "indianismo balsâmico" de José de Alencar, Gonçalves Dias, Fagundes Varela, agora travestido em "caboclismo". E comparou o caboclo ao "sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas".

Surgia o Jeca Tatu, nome que se generalizou no país todo como sinônimo de caipira, homem do interior.A repercussão foi grande e atingiu nível nacional, quando Lobato, já bastante conhecido, decidiu, em 1918, reunir seus artigos num livro, também intitulado Urupês. As três primeiras edições esgotaram-se rapidamente. Os jornais alimentaram a polêmica. Os saudosistas se indignaram: afinal, o caboclo era o "Ai-Jesus nacional", o queridinho do país.

Mas veio a suprema consagração. Rui Barbosa, que jamais citara qualquer autor vivo, referiu-se a Jeca Tatu, "símbolo de preguiça e fatalismo, de sonolência e imprevisão, de esterilidade e tristeza, de subserviência e embotamento" num discurso no Teatro Lírico.

"Um país com dois terços de seu povo ocupados em pôr ovos alheios".

Mas a convivência com Arthur Neiva, Belisário Pena e outros pesquisadores e a leitura do livro de Pena, O saneamento do Brasil, já haviam levado Lobato a rever totalmente sua concepção de caboclo. E no prefácio à quarta edição de Urupês, ainda em 1918, penitenciou-se:

"Eu ignorava que eras assim, meu caro Jeca, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte."

 Lobato não parou por aí. Indignado com a situação do país, lançou-se numa vigorosa campanha jornalística em favor do saneamento. Denunciou, sem medir as palavras, a realidade nacional: "O Brasil é o país mais rico do mundo, diz com entono o Pangloss indígena. Em parasitos hematófogos transmissores de moléstias letais - conclue Manguinhos." E apresentava as estatísticas: 17 milhões com ancilostomose, três milhões com Chagas, dez milhões com malária. "O véu foi levantado. O microscópio falou".

Investiu contra os falsos patriotas que o criticaram por expor nossa miséria. Associou a questão sanitária à economia do país. "Só a alta crescente do índice de saúde coletiva trará a solução do problema econômico... Não fazer isto é morrer na lenta asfixia da absorção estrangeira."
 
Criticou os bacharéis e políticos, a quem denominou com ironia de Triatoma bacalaureatus, atribuindo-lhes a situação caótica do Brasil. Censurou o descaso de nossas elites: "Legiões de criancinhas morrem como bichos de fome e verminose. Nós abrimos subscrições para restaurar bibliotecas belgas."

É impressionante a atualidade de algumas de suas críticas. Lobato denunciou fraudes nos produtos consumidos pela população. E ironizou os poucos recursos concedidos à saúde pública, lembrando que enquanto se gastava "123 mil contos no Teatro Municipal e 13 mil na exposição Pena" (100 anos da Abertura dos Portos), oferecia-se apenas mil a Belisário Pena.

"Sempre cabem 50 réis para cada duodeno afetado. Esta quantia, reduzida a timol, dá para matar pelo menos uma dúzia de ancilostomos dos três milheiros que, em média, cada doente traz consigo. Os 2.988 ancilostomos restantes ficarão aguardando verba."

E elogiava Manguinhos: "Só de lá que tem vindo e só de lá há de vir a verdade que salva e vence..."

A campanha de Lobato acabou forçando o governo a dar atenção ao problema sanitário. Criou-se uma campanha de saneamento em São Paulo, sob o comando de Arthur Neiva. O código sanitário foi remodelado, transformado em lei. E o escritor reúniu seus artigos sobre a questão no livro O problema vital.

Mas Lobato achava necessário não mobilizar apenas as elites, mas alertar e educar o povo, principal vítima da falta de saneamento. Escreveu então Jeca Tatu - a ressurreição. O conto, mais conhecido como Jeca Tatuzinho, serviu de inspiração para uma história em quadrinhos bastante popular, que foi divulgada em todo país através do Almanaque do Biotônico Fontoura.

Jeca, considerado preguiçoso, bêbado e idiota por todos, descobria que sofria de amarelão. Tratava-se. E transformava-se em um fazendeiro rico.

"Quero mostrar a essa paulama quanto vale
um homem que tomou remédio de Nhá
Ciência, que usa botina cantadeira e não
bebe um só martelinho de aguardente."

Almanaque do Biotônico, 1935 (Ilustração: J.U.Campos)

Almanaque do Biotônico, 1935 (Ilustração: J.U.Campos)

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