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Oito braços, três corações e alma espanhola

Por: Bruno Delecave

Foto: NURC/UNCW e NOAA/FGBNMS

Foto: NURC/UNCW e NOAA/FGBNMS

Os polvos são moluscos marinhos, possuem oito braços, dois olhos e três corações. Os braços possuem fortes ventosas capazes de agarrar animais e sentir o gosto do que tocam. Os olhos são muito sensíveis, mas a visão das cores varia de espécie para espécie. O coração principal bombeia sangue através do corpo, enquanto os dois corações secundários enviam sangue para dentro das guelras.

Assim como outros cefalópodes (membros da classe Cephalopoda), polvos não têm esqueleto ou espinha dorsal. São, portanto, invertebrados. Todo o corpo é mole, com exceção do bico, semelhante ao de um papagaio, que é duro.

Defesa e fuga

Polvos são predadores e, portanto, caçam animais para se alimentar. Seus alimentos incluem crustáceos e outros invertebrados marinhos. Porém, também são presas de outros animais, como tubarões, enguias e golfinhos. Para escapar dos seus predadores, escondem-se ou fingem não ser o que são, camuflando-se.

Propulsão a jato. Foto: Albert Kok

Propulsão a jato. Foto: Albert Kok

A camuflagem é possível graças a células especializadas, que mudam a cor aparente da pele. Certas espécies combinam camuflagem com flexibilidade para imitar pedras, algas,ou animais mais perigosos, como moréias ou cobras-do-mar. A mudança de cor serve também para comunicação e faz parte do ritual de acasalamento.

Entretanto, se for descoberto, um polvo conta ainda com outras defesas. A maioria é capaz de soltar jatos de tinta preta para confundir seus predadores, facilitando a fuga do animal de oito braços. Essa tinta é feita principalmente de melanina, a mesma substância responsável pela cor da pele e cabelos nos seres humanos. A nuvem resultante tem um forte cheiro e atrapalha animais que usam o olfato para caçar, como tubarões. Por muito tempo os sacos de tinta dos cefalópodes eram a principal origem da maioria das tintas utilizadas.

Há espécies que desprendem seus braços para facilitar uma fuga, assim como lagartixas fazem com seus rabos. Os braços desprendidos distraem os predadores, que tentam comê-los. Mais tarde, o polvo pode regenerar membros perdidos. Essa forma de defesa é conhecida como autotomia.

Confundir o predador - atirando com jatos de tinta ou soltando membros - é apenas a primeira etapa da fuga. Depois de criar uma distração para seus predadores, esse interessante molusco aciona sua propulsão a jato e se distancia rapidamente do perigo. Para isso o povo conta com um órgão especial: o funil (ou sifão). Este órgão é usado por cefalópodes para se locomover expelindo e direcionando água. Além de usar o funil, polvos podem nadar ou caminhar sobre dois ou mais braços.

Reprodução

Polvo larval. Foto: Matt Wilson/Jay Clark, NOAA

Polvo larval. Foto: Matt Wilson/Jay Clark, NOAA

A prática do canibalismo (alimentar-se de membros da própria espécie) é muito comum entre polvos. Portanto, para se reproduzir, a fêmea precisa liberar um feromônio sexual que atrai e impede o parceiro de devorá-la. Depois de um longo ritual de acasalamento, o macho introduz seus espermatóforos (uma espécie de pacote de espermatozóides)usando um braço especializado. Este braço possui na ponta uma depressão em forma de colher. Alguns meses depois de copular, o macho morre.

Em algumas espécies, a fêmea forma cachos com milhares de ovos, parecidos com um cacho de uvas, prendendo-os dentro de tocas nas rochas.Enquanto maturam, a futura mãe protege os ovos de predadores e sopra correntes de água para que haja oxigênio suficiente. Quando os filhotes nascem, ela está muito fraca e morre logo depois. Após saírem dos ovos, os filhotes flutuam entre nuvens de plâncton e se alimentam de larvas de estrelas-do-mar e de caranguejos. Quando já estão maiores, vão para o fundo do mar.

Inteligência

Apesar de não terem espinha dorsal, os polvos têm um sistema nervoso altamente desenvolvido. São considerados os invertebrados mais inteligentes do planeta. Já ficou provado, através de experimentos em que polvos resolvem problemas, que eles têm memória de curta e longa duração. Quando colocado em um labirinto, um polvo aprende o caminho na primeira tentativa e, depois, vai direto até a saída.

Além disso, polvos conseguem usar ferramentas simples e até mesmo abrir potes fechados. Não se sabe, porém, se toda essa sagacidade é de fato aprendida individualmente ou simples fruto de instinto animal.

Tamanha é a inteligência desses animais que, no Reino Unido, eles são considerados vertebrados honorários. Pelo mesmo motivo, em alguns países, eles só podem ser operados com uso de anestesia. Pois de outra forma o cefalópode sentiria dor.

Espécies e habitat

Polvo colossal por Pierre Denys de Montfort

Polvo colossal por Pierre Denys de Montfort

A maioria dos polvos vive no fundo do mar, em quase qualquer profundidade. Entretanto algumas espécies passam parte de sua vida na superfície dos oceanos. Em geral, preferem mares temperados. Porém, as espécies maiores vivem em mares mais frios.

O polvo gigante do Ártico e o polvo de sete braços disputam o título de maior polvo dos mares. O maior polvo encontrado tinha 4 metros e pesava 75 quilos: era um polvo de sete braços. Alguns cientistas acreditam que o polvo gigante pode ficar ainda maior. Já o menor polvo conhecido habita o Oceano Índico e mede apenas um centímetro e meio. Algumas pessoas procuram espécies pequenas para seus aquários. Quando se torna animal de estimação, a famosa inteligência dos polvos pode trazer problemas para seus donos. Afinal, é capaz de levantar a tampa e escapar do seu aquário. Se houver oportunidade, o espertinho pode entrar em outro aquário e até mesmo comer os bichos que encontrar por lá.

Existem quase 300 espécies de polvo conhecidas. Talvez existam mais algumas escondidas em grandes profundidades. Você não gostaria de descobrir uma espécie desconhecida pela ciência? O biólogo que descobre uma nova espécie tem o privilégio e a honra de escolher o nome dela.

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