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Saúde mental não tem idade

Por: Irene Cavaliere

Ilustração: Renan Alves

Ilustração: Renan Alves

Ficar triste, brigar com os pais, ter um certo medo do escuro, não querer ir pra escola um dia, se sentir irritado ou desatento de vez em quando é normal. Essas coisas acontecem com todo mundo, e podem ter diversos motivos: uma nota baixa, a derrota do seu time, uma noite mal dormida, um amor não correspondido... Saber lidar com esses sentimentos e superá-los é importante e até mesmo saudável: faz parte do processo de amadurecimento de todos nós.

Mas em alguns casos o problema não passa, e começa a ter impactos negativos na vida familiar, escolar e social da criança ou adolescente, afetando seu desenvolvimento. Muitas vezes, os adultos não dão bola, acham que depressão ou qualquer outro tipo de problema psiquiátrico é coisa de gente mais velha. Mas não é bem assim. Segundo Rossano Cabral Lima, psiquiatra infanto-juvenil e doutor em Saúde Coletiva pela UERJ, de 10 a 20% das crianças e adolescentes sofrem com algum tipo de transtorno psiquiátrico. 

Na infância, os mais comuns são os transtornos emocionais ou internalizantes (quadros fóbico-ansiosos e depressivos) e os transtornos disruptivos ou externalizantes (hiperatividade e transtornos de conduta). Há também os quadros autistas, que são graves, embora menos comuns.

Entre os adolescentes, há um aumento nos quadros depressivos, além dos problemas envolvendo uso de álcool e outras drogas, e dos transtornos alimentares (anorexia e bulimia). É nessa época que surgem situações mais graves, embora menos frequentes, como a esquizofrenia e os transtornos bipolares do humor.

Mistérios da mente à parte, a presença de transtorno mental na mãe, condições socioeconômicas desfavoráveis, morar em comunidades perigosas, ambiente doméstico violento, punições físicas às crianças e dificuldades no ambiente escolar são fatores que contribuem para o desenvolvimento de problemas psiquiátricos infanto-juvenis.

Detectando o problema

Como praticamente todos os tipos de transtornos possuem formas leves, muitas vezes é difícil identificar a diferença entre o normal e o problemático. “Os pais devem estar atentos, manter um canal de comunicação aberto com a criança ou adolescente e conversar regularmente com os professores, para avaliar se a situação detectada em casa também está interferindo no desempenho escolar”, recomendou o psiquiatra.

Quando percebem que algo vai errado com a criança, mesmo que ainda não existam impactos negativos muito evidentes, os pais já podem procurar um especialista, geralmente um psiquiatra ou psicólogo. “A intervenção precoce pode aliviar o problema em uma fase de menor gravidade, melhorando o prognóstico. Além disso, nessas fases iniciais, muitas vezes o atendimento e orientação dos pais pode ser suficiente para que o problema seja superado”, orientou Rossano. Mas ele também faz um alerta: “o risco de levar a criança a um psiquiatra quando não há uma necessidade clara disso é o de 'medicalizar' a situação, ou seja, privilegiar a abordagem médica em detrimento das demais abordagens, incluindo a prescrição apressada e desnecessária de remédios”.

Em relação à saúde mental, a noção de cura não é muito apropriada. Para isso, seria preciso conhecer todos os fatores envolvidos no problema. E entender a cabeça dos outros não é mesmo fácil. Mas há tratamentos para todos os casos, que conseguem atenuar o mal-estar e favorecer um desenvolvimento mais saudável.

– Os tratamentos envolvem o manejo psicológico da criança ou adolescente, o atendimento dos pais ou outros responsáveis, o uso de medicamentos e intervenções psicossociais, como por exemplo o encaminhamento para escolas especiais. O ideal é que essas estratégias sejam articuladas umas com as outras, e que o tratamento envolva diferentes profissionais –  psicólogos, médicos psiquiatras, assistentes sociais, etc. – explicou Rossano.

Saiba mais sobre os principais transtornos psiquiátricos que mexem com a cabeça de crianças e adolescentes: Tipos de transtornos psiquiátricos 

Consultoria: Rossano Cabral Lima, psiquiatra infanto-juvenil, doutor em saúde coletiva (IMS/UERJ), professor visitante do NUPPSAM/IPUB/UFRJ.

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