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A descoberta do oxigênio: uma ação entre inimigos

Por: invivo

Joseph Priestley

Joseph Priestley

Eles não podiam ser mais diferentes. Um era um pregador inglês pobre e autodidata. O outro era um aristocrata francês rico, que estudara nas melhores escolas. Um era um homem do passado, o outro abria o caminho para o futuro. Um era extremamente religioso, o outro colocava a ciência e a razão acima da religião.

Joseph Priestley e Antoine Lavoisier se detestavam, mas as experiências de ambos levaram à descoberta do mais importante dos elementos químicos: o oxigênio. E este não foi o único ponto em comum entre os dois. Perseguidos por seus governos, tiveram um destino trágico. O inglês partiu para o exílio, e o francês foi parar na guilhotina.

A inimizade entre os dois nasceu da falta de consideração de Lavoisier e da intransigência de Priestley. Este descobriu primeiro o oxigênio, mas não tinha a menor ideia do que encontrara. Lavoisier compreendeu o significado das experiências de Priestley e estabeleceu o papel do oxigênio na combustão e sua presença na atmosfera.

As experiências de Scheele

Na realidade, quem primeiro descobriu o oxigênio foi o químico farmacêutico sueco Carl Wilhelm Scheele. Ao estudar as propriedades do dióxido de manganês e de outros compostos, Scheele desenvolveu, em 1772, o conceito de ar do fogo.
Aquecendo vários compostos como óxido de mercúrio, carbonato de prata e nitrato de magnésio e outros nitratos, Scheele concluiu que a atmosfera era composta por apenas dois gases: um, o ar viciado (nitrogênio) impedia a combustão; o outro, ar de fogo (oxigênio) a alimentava. Contudo, ele só publicou seus resultados em 1777, dois anos depois das publicações de Priestley e Lavoisier.

A sorte do experimentalista

Aparelho improvisado de Priestley

Aparelho improvisado de Priestley

Em 1774, Priestley, utilizando uma grande lente para focalizar raios de sol, queimou uma amostra de óxido de mercúrio dentro de um vaso e testou o ar que se desprendia. Usando uma vela, descobriu que esse ar, ao contrário de outros gases, não só mantinha a combustão, mas que a chama brilhava de forma mais intensa.
Depois colocou um camundongo dentro de um recipiente cheio do novo gás e observou que ele parecia revigorado. O próprio Priestley inalou o ar e se sentiu muito bem, o que o levou a recomendar sua utilização nos casos de doenças pulmonares.
Priestley era um adepto da teoria do flogisto, uma matéria liberada no ar durante a combustão ou calcinação. Para ele, esse novo gás era um ar puro ou quase puro. Ele o denominou “ar deflogistado”, isto é, um ar que não continha flogisto e, por isso, era capaz de absorvê-lo em grandes quantidades.

Pouco depois dessas experiências, Priestley acompanhou seu patrono, Lorde Shelbourne, em uma viagem pelo continente europeu. Em Paris, jantou na casa de Lavoisier, na única vez em que os dois rivais se encontraram, e descreveu suas experiências.

O grande teórico

Lavoisier já vinha estudando gases e questionando a teoria do flogisto. Em suas experiências com fósforo e enxofre, descobrira que o produto da combustão pesava mais do que o material original, o que significava que havia absorvido ar. Em seguida realizou o processo inverso. Queimou chumbo e formou um óxido, observando que ocorrera um aumento do peso. Depois reagiu este óxido com carvão vegetal, transformando-o no material original e liberando uma grande quantidade de gás.

O químico francês passou a concentrar-se no ar e descobriu que entre um sexto e um quinto do ar utilizado em uma experiência era consumido durante o processo de combustão. Essa descoberta apoiou sua crença de que o ar era composto de mais de um gás.

O almoço com Priestley deu a Lavoisier a peça que faltava em seu quebra-cabeça. Ele repetiu as experiências do visitante e fez sua análise das propriedades do novo gás. Determinou que este não se dissolvia em água, não turvava a água de cal, não reagia com álcalis e reagia com metais para formar óxidos. Publicou suas descobertas dois meses depois que o químico inglês.

Novas experiências levaram à conclusão que o ar era formado de duas partes distintas: um gás que sustentava a vida e a combustão, e outro que era uma forma asfixiante. Hoje se sabe que o ar é composto por muitos gases, mas há dois componentes principais, como preconizara Lavoisier: o oxigênio (21%) e o nitrogênio (78%).

Priestley irritou-se profundamente com Lavoisier por achar que ele não lhe dera o devido crédito. Além disso, cada vez mais aferrado à teoria do flogisto, discordava das interpretações do francês. Continuou a realizar suas experiências, formulando explicações cada vez mais confusas dos seus resultados.

Em 1786, Lavoisier publica suas conclusões sobre o oxigênio e a combustão e declara:

“O flogisto de Stahl é imaginário e sua existência nos metais, no enxofre, no fósforo e em todos os corpos combustíveis é uma suposição sem base.”

As experiências de Lavoisier. Ilustração:Mme.Lavoisier

As experiências de Lavoisier. Ilustração:Mme.Lavoisier

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A teoria do flogisto

Carl Wilhelm Scheele

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