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Rocha Lima, o pai das rickettsias

Por: Maria Ramos

Nascido no Rio de Janeiro em 24 de novembro de 1879, Henrique da Rocha Lima tornou-se famoso internacionalmente pela descoberta da causa do tifo epidêmico (ou exantemático), uma doença transmitida pelo piolho do corpo que afligia combatentes e prisioneiros de guerra na Europa. O agente foi batizado de Rickettsia prowazeki, nome dado por ele em homenagem aos pesquisadores Howard Taylor Ricketts e Stanislas Von Prowazek, que morreram vítimas da moléstia, ao tentar estudá-la. Com esta descoberta, Rocha Lima deu início a um novo capítulo nos livros de Microbiologia: o capítulo das Rickettsioses.

A parceria com Oswaldo Cruz

Rocha Lima foi um dos primeiros a frequentar o Instituto Oswaldo Cruz, na época chamado Instituto Soroterápico Federal. Antes mesmo de se formar em 1901 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, já trabalhava na instituição, mais conhecida como Instituto de Manguinhos. Foi o convívio com Oswaldo Cruz que levou Rocha Lima a se decidir pela pesquisa científica, e não pela Medicina Clínica como o fez seu pai.

Logo depois de formado, Rocha Lima seguiu para a Alemanha com o objetivo de dar continuidade aos seus estudos, mas já em 1902, foi convidado a retornar a Manguinhos. De volta ao Brasil, ele colaborou intensamente com Oswaldo Cruz até 1909, nos projetos de pesquisa e de saneamento do país.

Rocha Lima teve participação decisiva para a construção de uma imagem positiva do Instituto de Manguinhos e da ciência brasileira no exterior. Em setembro de 1907, o Brasil surpreendeu o mundo ao mostrar os trabalhos, pesquisas e descobertas dos cientistas de Manguinhos durante o XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia, em Berlim, na Alemanha. Por ter trabalhado na Universidade de Munique e na Escola de Moléstias Tropicais de Hamburgo, Rocha Lima já era conhecido e prestigiado na comunidade científica alemã. Por isso, ele conseguiu garantir bons espaços na exposição para acomodar o vasto material que ele e Oswaldo Cruz pretendiam apresentar. Com uma exposição impecável, o Instituto de Manguinhos recebeu a medalha de ouro no Congresso, prêmio que mudaria a história da atual Fiocruz.

Moléstia das guerras

Ainda em 1909, Rocha Lima voltou para a Alemanha a convite do professor Durk, com quem havia feito um estágio no Instituto de Anatomia Patológica de Munique. Em 1910, ingressou no Instituto de Moléstias Tropicais de Hamburgo, permanecendo até 1928. Foi trabalhando nesta instituição que ele foi indicado pelo governo alemão para estudar o tifo epidêmico em Constantinopla, na Turquia, no Hospital Militar de Haidar Pascha, junto com Stanislas Von Prowazek, um dos maiores bacteriologistas da época e antigo companheiro do Instituto de Manguinhos.

A doença estava se propagando rapidamente entre os militares que combatiam nas guerras balcânicas (1912-13), e havia uma grande preocupação de que a enfermidade, altamente contagiosa, viesse a se alastrar pela Europa. Com o início da 1ª Guerra Mundial, em agosto de 1914, Rocha Lima e Von Prowazek tiveram de voltar para Hamburgo. Mas logo em seguida, foram chamados novamente para tentar descobrir a causa do tifo, que dizimava centenas de prisioneiros russos no interior da Alemanha.

Seguiram, então, para o campo de prisioneiros de Cottbus, onde sete mil de um total de 10 mil tinham contraído tifo. Já se sabia que eram os piolhos os transmissores da doença, uma descoberta feita pelo pesquisador Charles Nicolle, em 1909. Por isso, Rocha Lima e Prowazek examinaram os intestinos desses artrópodes, coletados em soldados doentes ou mesmo mortos, numa tentativa de descobrir o agente causador daquela enfermidade.

Infelizmente, não demorou muito para Prowazek se contaminar com os materiais preparados a fresco, falecendo em 17 de fevereiro de 1915, como tantos pesquisadores que investigavam a doença: Ricketts, Jochmann, Lüthje, Cornet, Römer, Pappenheim, Schüssler, Lemos Monteiro, entre outros. Após o falecimento de Prowazek, Rocha Lima trabalhou ainda mais intensamente para elucidar a doença, sendo também infectado. Mas ele conseguiu se restabelecer e voltou para Hamburgo.

A descoberta das rickettsias

Em 15 de fevereiro de 1916, Rocha Lima finalmente anunciou a descoberta do causador do tifo epidêmico. Era uma pequeníssima bactéria, que se desenvolvia no interior das células intestinais dos piolhos, um agente que denominou Rickettsia prowazeki. Além de introduzir o conceito de Rickettsias como uma nova classificação de micro-organismos e descobrir o agente que provocava o tifo, Rocha Lima ainda esclareceu a distribuição da doença, sua epidemiologia e profilaxia, viabilizando a produção de soros e vacinas.

Suas pesquisas, no entanto, não receberam o reconhecimento devido da comunidade científica. Em 1928, Charles Jules Henri Nicolle recebeu o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia por ter descoberto que o piolho era o transmissor do tifo epidêmico e Rocha Lima sequer foi citado. Descontente com a falta de reconhecimento, Rocha Lima recebeu o título de Cavalheiro da Ordem da Águia Alemã, em 1938, das mãos do próprio Hitler durante o regime nazista, gerando polêmicas acerca de sua posição política.

Rocha Lima regressou ao Brasil em 1928, quando passou a chefiar a Divisão de Patologia Animal do Instituto Biológico de São Paulo. Em 1933, ele assumiu a direção do Instituto, cargo que só deixou em 1949. Faleceu em 12 de abril de 1956, aos 76 anos.

Pesquisas sobre Febre Amarela

Rocha Lima iniciou seus estudos sobre febre amarela no ano de 1908. O pesquisador deixou importantes contribuições científicas que ajudaram no combate à doença, descrevendo as lesões que a febre amarela deixava em diversos órgãos, principalmente no fígado. Os pesquisadores Miguel Couto e Azevedo Sodré já tinham, nesta época, estudado a parte clínica da doença, diagnosticado-a por meio do aumento de volume de fígado e baço, da cor amarelada que o doente apresentava e hemorragias.

No entanto, foi somente em 1928, durante uma epidemia da doença no Rio de Janeiro, que a lesão Rocha Lima foi finalmente admitida. O seu trabalho tornou possível determinar com precisão a ocorrência de surtos epidêmicos para que, assim, medidas preventivas fossem tomadas.

Lamentavelmente, todo o empenho de Rocha Lima na elucidação da febre amarela acabou sendo negado por seus próprios colegas de trabalho do Instituto Oswaldo Cruz, que atribuíram a Councilman o mérito de suas pesquisas. Mas a verdade veio à tona com a Comissão Rockefeller no Brasil, sob a direção de F. L. Soper, que aceitou definitivamente os trabalhos de Rocha Lima.

Foto retirada em:

http://www.biologico.sp.gov.br/grandes_nomes/rocha_lima.htm

Fontes:

MORAES, Santos. Dois cientistas brasileiros (Rocha Lima e Gaspar Viana). Rio de Janeiro, Edições Tempo Brasileiro Ltda, 1968.

http://www.biologico.sp.gov.br/grandes_nomes/rocha_lima.htm

 

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