Aumentar tamanho da letra  Reverter ao tamanho original Diminuir tamanho da letra  english español

Para onde os peixes vão?

Por: Juliana Rocha

Piracema no rio Madeira, em Rondônia. SECEL/RO.

Piracema no rio Madeira, em Rondônia. SECEL/RO.

Em inglês, fish. Em francês, poisson. Em tupi-guarani, pira. Não é à toa que tantos peixes brasileiros tem pira em seus nomes: pirarara, pirapitinga, piraíba, pirarucu... Pira também está no nome dado à migração realizada todos os anos por diversas espécies de peixes encontrados em rios brasileiros.

Com a aproximação do verão, os dias ficam mais quentes, as chuvas mais frequentes e aumenta a concentração de oxigênio na água dos rios. Esses sinais ambientais são interpretados pelos peixes como indicadores da chegada do momento oportuno para viajar.

Durante a piracema, os peixes deixam as lagoas, baías e áreas de alimentação em busca de um local adequado para a reprodução e desova. Exemplares de espécies diferentes formam cardumes e nadam juntos em direção às nascentes dos cursos d’água.

Quando, enfim, atingem o destino, as fêmeas liberam seus ovos para que os machos os fertilizem. A fecundação dos peixes migratórios é externa, por isso a presença de um grande número de animais na mesma área aumenta as chances de sucesso reprodutivo.

Os ovos fecundados formam uma grande nuvem flutuante na superfície da água: predadores, escassez de alimentos e outras condições ambientais pouco favoráveis impedirão muitos deles de se transformarem em peixes adultos. Essa perda é controlada, contudo, pela correnteza, que carrega ovos e filhotes para as margens, onde há mais alimento e proteção.

Entre os itinerários de viagem mais impressionantes estão os realizados pela  piramutaba (Brachyplatystoma vaillantii) e pela dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), espécies de peixe de couro – lisos, sem escamas – encontrados na bacia amazônica. Esses peixes percorrem 5.500 quilômetros para se reproduzirem: saem da foz do rio Amazonas e nadam até a cidade de Iquitos, no Peru. Para completar o trajeto, os peixes adultos demoram até seis meses, mas os ovos flutuando ao sabor da correnteza retornam à foz do rio em menos de 20 dias. Ali se desenvolvem e, ao atingir a maturidade cerca de três anos depois, migram para o Peru e dão origem a mais uma geração de peixes.

O apelo pela conservação da espécie durante a piracema é tão forte que os peixes se descuidam em suas estratégias de proteção. Exaustos pelo esforço de nadar contra a correnteza, tornam-se presas fáceis.

Canal da piracema na usina Itaipu. Itaipu Binacional.

Canal da piracema na usina Itaipu. Itaipu Binacional.

Alguns pescadores se aproveitam dessa fragilidade e, rapidamente, conseguem capturar muitos peixes. Ao interromper o ciclo reprodutivo, essa prática põe em risco a renovação dos estoques e a sobrevivência das espécies. Por isso, para assegurar a perpetuação dos peixes migratórios, é importante impor restrições à pesca durante a piracema.

Por interromper o fluxo d’água, as barragens são outro obstáculo à viagem dos peixes. Para permitir a sua passagem, canais de migração são construídos junto às usinas hidrelétricas.

Voltar à matéria principal.

versão para impressão: versão para impressão