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Os curingas do corpo humano

Por: Sarita Coelho

Se o corpo humano fosse um imenso quebra-cabeça, as células seriam suas peças. Todos os seres vivos são formados por células. A maioria delas é tão pequena que só pode ser vista com ajuda de um microscópio. Assim como as peças de um quebra-cabeça formam uma figura depois de montadas, a união das células forma os seres vivos.

Mas existem umas células especiais que funcionam como uma peça curinga nessa brincadeira. Imagine que alguém perca uma peça do quebra-cabeça e este fique incompleto. A peça curinga teria o poder de se transformar naquela que faltava para completar o jogo. No nosso organismo, as peças curingas são chamadas de células-tronco.

As células-tronco podem ser encontradas em qualquer órgão. Elas são responsáveis por fazer os reparos necessários quando ocorrem pequenas lesões nas outras células. É o que acontece, por exemplo, quando alguém se corta: as células-tronco ao redor entram em ação e provocam uma cicatrização.

Mas, quando um órgão apresenta uma lesão maior, as células-tronco mais próximas não são suficientes para sanar o problema. A saída, então, é apelar para grandes reservatórios destas células no nosso organismo: a medula óssea (região esponjosa que fica dentro do osso), a placenta (órgão de onde o bebê, na barriga da mãe, tira sua alimentação) e o cordão umbilical (órgão semelhante a um cordão que une o bebê à placenta). Mas os maiores reservatórios são os embriões.

O corpo humano adulto é composto por mais de 70 trilhões de células dos mais variados tipos: da pele, do cérebro, do coração etc. Todas elas derivam das células-tronco. Estas células têm a capacidade especial de formar qualquer conjunto de células (com exceção da placenta) e de criar cópias idênticas delas mesmas.

Esta descoberta abriu caminhos para a utilização das células-tronco no reparo de órgãos ou tecidos (conjunto de células) lesados. Ao invés de substituir o órgão doente por outro de um doador, vislumbra-se a possibilidade de se recuperar este órgão com o uso das células-tronco.

Mas é preciso ir com calma. Esses estudos estão apenas começando. É como se fossem bebês que ainda não aprenderam a falar e andar. Os cientistas têm muito a investigar até descobrir todos os mistérios dessas células curinga. O que se imagina é que, no futuro, elas possam ser usadas no tratamento de doenças como diabetes, câncer, mal de Parkinson e mal de Alzheimer. Em algumas pesquisas, elas já são usadas no tratamento de doença de Chagas e de males do fígado.

Como surgem as células-tronco?

Após a fecundação do óvulo pelo espermatozóide, forma-se uma célula (zigoto) que começa a se multiplicar. Cerca de uma semana depois, já existe um grupo de aproximadamente cem células chamadas blastocisto.

As células da camada interna do blastocisto têm a capacidade de se multiplicar e de se transformar em qualquer célula do organismo – são as chamadas células-tronco embrionárias. Em 1998, uma equipe da Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, conseguiu isolar as primeiras células-tronco de embriões humanos. Mais ou menos nessa época, começaram a surgir os primeiros relatos de estudos sobre as propriedades das células-tronco encontradas no corpo humano adulto.

Para conhecer mais sobre as pesquisas com células-tronco no Brasil, leia a entrevista do Dr Ricardo Ribeiro dos Santos ao Projeto Ghente.

Fotos:

Células-tronco de camundongo (em verde). Ricardo Ribeiro dos Santos e equipe, CPqGM/Fiocruz.

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