Publicada em: 20/08/2007 às 17:00
História


Luiz Sá: um desenhista a serviço da saúde
Elisa Batalha

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Pode perguntar para os seus avós ou seus pais: se eles gostavam de histórias em quadrinhos, provavelmente conhecem Reco-Reco, Bolão e Azeitona. Os três meninos bagunceiros eram personagens muito famosos criados por Luiz Sá e publicados na primeira revista em quadrinhos do Brasil, O Tico-Tico, que circulou desde 1905 até a década de 70. A revista tornou conhecidos muitos desenhistas brasileiros, e divertiu gerações de leitores.

Na mesma época que Reco-Reco, Bolão e Azeitona faziam muito sucesso, entre os anos 30 e 50, o seu criador Luiz Sá trabalhava também como funcionário do Serviço Nacional de Educação Sanitária  - um órgão governamental criado em 1941, durante o governo do presidente Getúlio Vargas - e ilustrou vários livros e folhetos sobre saúde pública e prevenção de acidentes.

Seus traços retratavam os hábitos e cuidados com a saúde com leveza e humor, ajudando a tornar o tema mais atraente para todos os públicos. Hábitos saudáveis, alimentação correta, higiene, prevenção e combate a doenças eram alguns dos temas tratados pelo Serviço Nacional de Educação Sanitária, que se dedicou a criar peças de propaganda em diversos meios. Um desses recursos eram as cartilhas, como estas, que datam de 1949.

 Alimentação e cuidados com a pele eram alguns dos temas das cartilhas

Alimentação e cuidados com a pele eram alguns dos temas das cartilhas


Os livrinhos tratavam de assuntos variados de saúde, higiene e alimentação. Falavam de doenças específicas, mas também de cuidados do cotidiano. Uma delas ensinava até mesmo a que horas as pessoas deveriam tomar banho! “Todos os dias, de preferência pela manhã”, era o que se acreditava na época ser o mais certo. Regras de como cuidar das desagradáveis espinhas, e de como escolher os alimentos mais nutritivos são outros exemplos do conteúdo desse curioso meio de divulgação. A cartilha que tratava de câncer falava de um avanço daqueles dias: já era possível curá-lo com as técnicas existentes, desde que fosse descoberto no início. 

  

 Luiz Sá

Luiz Sá

Temas tão importantes de educação para a saúde exigiam ilustrações à altura. Por isso, foi convocado um fera dos quadrinhos e cartuns como Luiz Sá para ajudar a confeccionar as cartilhas. Ele, que foi um dos grandes desenhistas brasileiros, nasceu no Ceará em 1907, e ainda menino começou a rabiscar com carvão pelas calçadas de Fortaleza. Mudou-se para o Rio de Janeiro por volta de 1929, onde fez um pouco de tudo: foi vigia noturno no Hospital da Gamboa, fez charges, ilustrou livros, desenhou para cinema e televisão, etc. Deixou seu traço na história em um período em que ideias importantes sobre educação, saúde, e propaganda estavam sendo desenvolvidas.

Depois dessa época de ouro dos seus desenhos, a vida de Luiz Sá não ficou nada fácil. Durante os anos 60, aconteceu uma verdadeira invasão dos quadrinhos estrangeiros, e por isso muitas revistas brasileiras fecharam. Por isso, o artista retirou-se para viver afastado em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio. Ele contraiu  tuberculose em 1974, e  foi internado no Sanatório Azevedo Lima, em Niterói.

Apesar das dificuldades, continuou a trabalhar em prol da saúde, e durante sua internação, realizou cerca de 50 desenhos. Alguns retratavam o bacilo de Koch, causador da tuberculose, e outros inimigos da saúde. O desenhista se recuperou e voltou para casa após o tratamento, mas alguns anos depois, em 1979, acabou falecendo de complicações causadas pelo problema no pulmão. 
 

 Inimigos da saúde desenhados com bom humor pelo artista

Inimigos da saúde desenhados com bom humor pelo artista

Luiz Sá atuou em diferentes áreas e seu desenho faz parte do nosso dia-a-dia até hoje: ele é o criador gráfico do bonequinho das críticas de cinema do jornal O Globo, criado em 1938, e que indica a cotação dos filmes. O desenhista também merece ser aplaudido de pé.

Colaboração: Pedro Paulo Soares, diretor do Museu da Vida / COC/ Fiocruz 

Veja também: O Serviço Nacional de Educação Sanitária


Museu da Vida - Casa de Oswaldo Cruz - Fiocruz
Apoio: CNPq