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Um, dois, três e já: com vocês a história dos números

Por: Denise Moraes

Foto: PFCM.

Foto: PFCM.

Quem nunca usou os dedos para contar e fazer contas? A maioria dos professores não gosta e sempre pede para que a gente faça todos os cálculos de cabeça. Mas usar os dedos bem que ajuda, não é? Pelo menos ajudava no início, quando você estava aprendendo a calcular e começando a compreender o que eram aqueles símbolos meio complicados, os números.

E hoje, você já sabe calcular? Já conhece todos os números? Mesmo que você ainda não seja fera em matemática, certamente você está familiarizado com estes símbolos. Isso porque eles estão por todos os lados: na chamada da escola o seu nome corresponde a um número; no seu telefone alguns deles se combinam; no supermercado o seu biscoito favorito custa uma quantia que é expressa em números. E quando perguntam quantos anos você tem, como você responde? Usando um número!

Como muitas outras coisas que fazem parte da nossa vida, os números parecem óbvios. Dá impressão até que eles sempre existiram! Ou então que foram simplesmente inventados ou descobertos no passado assim, de uma hora para outra. Mas a verdade é que o que hoje nos parece tão comum é resultado de um longo processo. Até chegar aos algarismos que hoje tanto usamos foram muitos anos, muitos homens, muitos povos, muita história. Ah, e também muitos e muitos dedos...

Cavernas, ossos e pedras

Pontos: contando na caverna. Foto: Alek Baptista/MUHPAN.

Pontos: contando na caverna. Foto: Alek Baptista/MUHPAN.

Curiosos sobre a origem dos números, alguns estudiosos pesquisaram e acabaram percebendo que não os números, mas a necessidade de contar já existia há cerca de 30.000 anos atrás. Nesta época, para se alimentar, os homens caçavam e coletavam raízes e folhas. Normalmente viviam em grutas buscando se proteger de animais ferozes e do frio.

Em algumas dessas grutas, como a de Lascaux, na França, foram encontrados desenhos de homens desse período.  São imagens de animais e outros sinais como pontinhos e riscos. Desde que a gruta foi redescoberta, estes sinais estão sendo investigados. Talvez eles indiquem que os homens primitivos já contavam usando marcas. Mas não somente desenhando nas paredes de grutas: também faziam riscos em ossos de animais ou pedaços de madeira.

E para que esses riscos? Com base em desenhos de astros celestes como o sol, a lua e as estrelas feitos na mesma época, alguns especialistas afirmam que eles serviam para contar o tempo, permitindo que os homens realizassem os seus rituais religiosos no período certo.

Saindo das cavernas

Há cerca de 10.000 anos, os homens desenvolveram melhores técnicas de obtenção de alimentos. Continuavam a caçar, mas passaram a cultivar plantas e criar animais. Além disso, começaram a se reunir em grupos maiores, formando aldeias.

Todas essas mudanças fizeram surgir novas necessidades. Entre elas a necessidade de contar os animais que criavam. A contagem do tempo continuava sendo importante, pois, se quisessem garantir a colheita, eles tinham que saber as estações do ano para prever as épocas de chuva, de frio ou de calor. E, além de tudo isso, era fundamental saber quando deveriam adorar seus deuses e fazer cerimônias religiosas.

E como contar os bichos ou o tempo? Se você fosse um desses homens da antiguidade, como faria para contar?

Desenho: Eduardo Fleury.

Desenho: Eduardo Fleury.

Tudo bem, tudo bem, vamos dar uma pista... Um punhado de pedrinhas era, por exemplo, instrumento útil a um pastor: estabelecendo que cada pedrinha correspondia a uma ovelha de seu rebanho, ele podia mover as pedras, colocando em um saco de acordo com a saída de ovelhas para o pasto. Para cada ovelha que ia para o pasto ele colocava uma pedra do saco. Depois, na hora da volta dos animais, ia tirando uma pedrinha para cada ovelha que recolhia.

E se sobrassem pedrinhas no saco? Coitado do pastor, isso com certeza não era um bom sinal! Indicava que algumas de suas ovelhas tinham ido passear mais longe do que deviam...

Além de pedras também eram usadas sementes, folhas secas, gravetos e, é claro, os historicamente famosos dedos das mãos. O truque de contar usando os dedos das mãos não é novo. Se levarmos em conta as centenas de mãos pintadas na chamada Caverna das Mãos na Argentina, podemos perceber o quanto elas eram importantes para povos primitivos.

E a utilidade não estava só nos dedos das mãos: os dos pés muitas vezes também eram utilizados para contar. Isso fez com que muitos desses povos antigos começassem a agrupar quantidades de dez em dez, que é a soma dos dedos das mãos ou dos dedos dos pés. Outros agrupavam em vinte, a soma de todos os dedos.

Sinais em tabletes de argila

É, os dedos ajudavam bastante nos cálculos. Mas chegou um tempo em que sementes, pedras, gravetos e os próprios dedos não eram suficientes para contar. As quantidades tinham aumentado: de plantas, de animais, de pessoas, de terras. Vieram as guerras, os impostos e a necessidade de administrar o que circulava pelos reinos e aldeias era cada vez maior.

Tablete mesopotâmico. Foto: The British Museum.

Tablete mesopotâmico. Foto: The British Museum.

Foi por isso que os sumérios, habitantes da Mesopotâmia, inventaram a escrita, buscando também outras formas de contar. Eram um povo muito dedicado ao comércio e, por isso, precisavam registrar trocas e outras transações financeiras. Essa capacidade que tiveram de desenvolver a linguagem escrita permitiu que elaborassem símbolos para indicar quantidades.

O sistema numérico na Mesopotâmia pôde ser desvendado com a descoberta de muitas placas de barro em escavações arqueológicas na região. Os sumérios faziam registros e contas nesses tabletes de argila. Estudos sobre elas demonstraram que eles desenvolveram tabuadas e um sistema com base sessenta: todos as quantidades maiores que sessenta eram agrupadas e representadas a partir do sinal que representava sessenta ou quantidades menores. Este povo também foi pioneiro na representação posicional dos números: a posição dos símbolos interferia no valor que eles representavam.

Contando com egípcios e maias

Mais ou menos na mesma época que os sumérios, no nordeste da África um outro povo criava um outro sistema de numeração. Você já ouviu falar das pirâmides do Egito? Pois é, eles eram craques mesmo em arquitetura! E para construir, precisavam calcular. E para calcular, precisavam de números.

O sistema de numeração egípcio tinha sete números-chave, que hoje reconhecemos como os seguintes: 1, 10, 100, 1.000, 10.000, 100.000 e 1.000.000. Eles estabeleceram símbolos para cada um deles e, com estes desenhos, escreviam os outros números e faziam contas.

Acima dissemos que o sistema mesopotâmico usava agrupamentos de 60. Agora, faça um exercício: olhando os números-chave egípcios, você arrisca dizer qual era o agrupamento usado por este povo?

Séculos depois dos egípcios registrarem contas em papiros, um outro povo também utilizaria desenhos para fazer contas do outro lado do oceano Atlântico. Mas no caso deste povo americano, os maias, eram utilizados apenas três símbolos na escrita de todos os números: uma concha, um ponto e uma barrinha.

Disco maia com números. Fonte: Henri Stierlin.

Disco maia com números. Fonte: Henri Stierlin.

Como o egípcio, o sistema numérico maia utilizava figuras para representar números. Pensando nos números das duas civilizações você pode até pensar: como são parecidos, os dois com desenhos! Mas vamos com calma. A forma deles escreverem podia até ser semelhante, no entanto o sistema maia era diferente do egípcio em dois aspectos: o uso da base vinte e de um símbolo para o zero.

O zero é uma grande invenção para os sistemas numéricos. Ele será o responsável pelo sucesso do sistema que utilizamos hoje, pois ajuda na representação posicional e na construção do princípio multiplicativo para os números.

Princípio multiplicativo... mas o que seria isso? É o seguinte: observe o número 605. Nele cada algarismo representa na verdade o produto dele de acordo com sua posição: o 6 é igual a 6 X 100 (centena), o 0 é igual a 0 x 10 (dezena) e o 5 é igual a 5 x 1 (unidade). Entendeu? Então guarde a noção de princípio posicional, pois ela será importante para entender nossa forma atual de numerar.

Números gregos, hebraicos e romanos

Você já deve ter ouvido falar a respeito dos gregos. Eles foram muito importantes para toda a história do Ocidente. Desenvolveram as artes, a política e a medicina. São considerados os pais da filosofia e da democracia. E, junto com tudo isso, também criaram um sistema numérico.

Matemática na Grécia. Quadro de Rafael, sec. XVI.

Matemática na Grécia. Quadro de Rafael, sec. XVI.

Os gregos usavam letras de seu alfabeto para representar números. Não sei se já aconteceu com você, mas talvez um dia você se depare com um exercício envolvendo os seguintes símbolos: α, β e γ. Parecem apenas três letrinhas, não é? Mas são números (1, 2 e 3) que já eram utilizados por matemáticos gregos.

Os habitantes da antiga Grécia não eram os únicos a representar números com letras. Também os hebreustinham um alfabeto numérico. Isto porque, na verdade, os dois sistemas de numeração escritos copiaram alguns aspectos da escrita dos fenícios, povo que entre 1.000 e 500 anos antes de Cristo dominava regiões no norte da África e no sul da Europa. A forma fenícia de escrever é a mãe das formas grega, hebraica, latina e árabe de escrever.

Naquele mundo antigo de gregos e hebreus, um outro povo começava a se destacar. Os romanos estavam desenvolvendo seus exércitos e táticas de guerra. E, como resultado disso, estavam ganhando cada vez mais territórios, lutando e conquistando outros povos. Foi assim que acabaram chegando até os gregos, guerreando com eles e conquistando muitas de suas terras.

A civilização grega entrou em crise, foi aos poucos desaparecendo e cedendo lugar ao Império Romano. No auge desse Império, os romanos chegaram a ocupar os territórios que hoje são de Portugal, Espanha, França, Itália e parte da Inglaterra. Com certeza eles tinham muita coisa para registrar em números. E, por isso, criaram uma forma de representar os números, uma forma que até hoje aprendemos nas aulas de matemática.

O sistema de numeração romano, assim como os dos gregos e dos hebreus, usava letras do alfabeto para representar quantidades. Mas no caso dos romanos eram apenas sete letras: I (1), V (5), X (10), L (50), C (100), D (500) e M (1000). Era um sistema ordenado, já que a ordem dos símbolos importava: VI (seis) era diferente de IV (quatro).

Você já viu algum desses números romanos por aí? Não? Experimente olhar em alguns relógios, na fachada de alguns prédios antigos ou em capítulos de livros. Geralmente nesses espaços ainda é possível vê-los.

Números orientais

A fama de gregos e romanos é tão grande que, às vezes, parece que só eles habitavam o mundo antigo. Entretanto, na mesma época, outras grandes civilizações também se desenvolveram no Oriente: a chinesa e a indiana. E as duas também desenvolveram formas de representar quantidades.

Parte de casco encontrado na China. Fonte: CSF.

Parte de casco encontrado na China. Fonte: CSF.

Na China, o sistema numérico era decimal e os números eram representados por símbolos próprios da escrita chinesa. Este sistema começou a ser desvendado com a descoberta de escritos chineses em cascos e ossos de tartaruga datados de mais de três mil anos atrás! O povo, que hoje é reconhecido por comer utilizando pauzinhos, começou a escrever desenhando pauzinhos. Veja na figura ao lado um pedaço de casco de tartaruga encontrado por arqueólogos.

No sistema numérico indiano está a origem do sistema que adotamos hoje. A região foi berço de vários sistemas de numeração. Por volta do século VI d.C, o povo hindu desenvolveu um sistema que apresentava o zero. No início, ele era representado pelo desenho de um ovo de ganso.

Com a introdução do zero, a numeração indiana precisava apenas de dez símbolos para representar todas as quantidades. Era um sistema posicional e multiplicativo. Esta facilidade deixou muitos sábios e matemáticos de outras partes maravilhados. Algum tempo depois, chegou à Europa. E de lá se espalharia por todo mundo.

O sistema indo-arábico

Pense em todos os números que você já escreveu, pensou ou leu. Todos eram representados usando os símbolos hindus (que hoje você conhece como 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9), certo? Em cada número eles aparecem em uma posição específica, que diz se eles valem unidades, dezenas e centenas. Por exemplo: no número 123 sabemos que o 1 vale 100 (1 x 100), que o 2 vale 20 (2 x 10) e que o 3 vale 3 (3 x 1). 

Estátua de Al-khowarizmi. Foto: Michel V./Flickr.

Estátua de Al-khowarizmi. Foto: Michel V./Flickr.

Além de diminuir a quantidade de símbolos, o que já facilita, o sistema indiano permitiu calcular mais rápido. Foi isso que encantou Al-khowarizmi, um árabe que se dedicou ao estudo da matemática hindu. Para espalhar a novidade, ele escreveu um livro com detalhes deste sistema de numeração.

Como o sistema foi criado pelos hindus e divulgado pelos árabes, ficou conhecido como indo-arábico. Pronto, finalmente chegamos ao sistema que hoje utilizamos. Como você pôde ler, até chegar à numeração hoje aceita foram milhares de anos. O homem já contou de diversas formas, a partir de diferentes necessidades.

Ah, e como você pôde ver também algumas coisas nunca mudam... como fazer contas com os dedos! Bom, mas pelo menos agora você já tem uma boa justificativa histórica para dar aos seus professores!

 

Para saber mais sobre cada sistema de numeração clique nos links ao longo do texto.

Colaboração: Paulo Henrique Colonese e Annna Karla da Silva - Parque da Ciência / Museu da Vida

Conheça o Jardim dos Códigos - Parque da Ciência / Museu da Vida.

 

Para saber mais:

IMENES, Luiz Márcio Pereira. Os números na história da civilização. São Paulo: Scipione, 1999. (Coleção Vivendo a matemática).

IMENES, Luiz Márcio Pereira. A numeração indo-arábica. São Paulo: Scipione, 2002. (Coleção Vivendo a matemática).

GUELLI, Oscar. Contando a História da Matemática – A invenção dos números. São Paulo: Ática, 2004.

GIRARDET, Sylvie. A gruta de Lascaux. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letrinhas. 2000.

BROIDA, Marian. Egito Antigo e Mesopotâmia para crianças. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

IFRAH, Georges. História Universal dos Algarismos: a inteligência dos homens contada pelos números e pelo cálculo. Tomo 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.

 

 

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