Fig 1. Moradores do território Kalunga cultivando a terra com saberes tradicionais que fortalecem a vida e a resistência no campo. Crédito: Júlio César dos Santos

 

Veja como saberes tradicionais, turismo comunitário e comunicação popular ajudam moradores do território Kalunga a enfrentar a crise climática

Entre as serras e rios do Cerrado goiano, o território Kalunga vive hoje sinais claros das mudanças climáticas. O clima não é mais previsível. As estiagens se estendem, as águas diminuem, seus habitantes sentem na terra e no corpo o peso da transformação. Mas como o maior território quilombola do Brasil tem enfrentado a crise do clima?

Localizado no norte do estado de Goiás e próximo às divisas do Tocantins e da Bahia, o Quilombo Kalunga ocupa cerca de 262 mil hectares, o que equivale a mais de 240 mil campos de futebol. O local abriga 39 comunidades tradicionais. Existe há mais de 300 anos, mas só foi reconhecido pelo Governo de Goiás como território remanescente de quilombolas desde 1991.

 Prevenção de incêndios e proteção de áreas naturais no território Kalunga

Algumas pesquisas confirmam o que esta e outras comunidades do Cerrado vêm percebendo há décadas. O biólogo Eduardo Ferreira, da Fiocruz Mato Grosso do Sul, explica que o bioma é hoje um dos mais vulneráveis às mudanças climáticas. O aumento acelerado das temperaturas em algumas regiões, maior até que o da Amazônia, vem provocando um estresse hídrico severo e alterando o regime das chuvas.

“As secas estão mais longas e, quando a chuva vem, ela cai de uma vez só, em períodos curtos. Isso altera o ciclo natural da água e impacta diretamente a agricultura, a vegetação e o modo de vida das comunidades tradicionais”, destaca Ferreira.

Ele alerta, ainda, para o risco do local se transformar em savana e deserto, o que que torna o solo mais seco e vulnerável a incêndios. Também reduz a biodiversidade e enfraquece a capacidade do bioma de se regenerar. A degradação do Cerrado, segundo ele, ameaça não só as nascentes e rios da região, mas todo o sistema hídrico do país. Afinal, é no Cerrado que nascem águas que alimentam oito das doze maiores bacias hidrográficas do Brasil.

Em um artigo de opinião publicado em 2024 na revista Ciência e Cultura, a bióloga Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília (UnB), expõe que o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul. Trata-se também da savana mais diversa do planeta, lar de mais de 12 mil espécies de plantas e 837 tipos de aves conhecidas. Mesmo assim, ele continua sendo um dos biomas mais ameaçados do Brasil.

Ela alerta na publicação que a perda da vegetação nativa e o avanço das monoculturas, isto é, do cultivo de uma única espécie vegetal, estão tornando o Cerrado mais quente e seco. Isso coloca em risco a biodiversidade e a segurança alimentar, energética e hídrica do país. Quase metade das águas que chegam à Usina Hidrelétrica de Itaipu, localizada em Foz do Iguaçu (PR), vem do Cerrado, mostrando que o que acontece nesse bioma repercute em todo o Brasil. Bustamante lembra ainda que as comunidades tradicionais, como os Kalunga, têm papel essencial na proteção da natureza e que, onde essas populações cuidam da terra, a vegetação continua de pé.

Um estudo apresentado na UnB em 2023 mostra, por exemplo, que os Kalungas usam técnicas tradicionais de manejo do fogo, conhecidas como queimadas prescritas. A prática busca prevenir grandes incêndios e proteger nascentes e áreas naturais. Desde 2013, integrantes da comunidade atuam na Brigada Federal do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). Essa união permite agregar saberes tradicionais à conservação da biodiversidade e ao enfrentamento das mudanças climáticas.

 

Fig 2. Brigadistas da comunidade quilombola Kalunga reforçando a equipe do Prevfogo no Pantanal. Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

Lembranças de um Cerrado mais úmido e diverso

 

Fig 3. Sr. Sirilo, liderança do território Kalunga, compartilha memórias e saberes que preservam a história e a cultura da comunidade. Crédito: Fátima Tertuliano

 

“Eu nasci e me criei aqui… Tenho 71 anos e, desde os oito, trabalho na roça”, conta o Sr. Sirilo dos Santos Rosa, liderança comunitária do território Kalunga. Ele lembra de ver a vegetação próxima de nascentes encharcada. Outras lembranças são rios saindo de barrancos, o cheirinho do fogão à lenha e os frutos como mangaba, buriti e jatobá. Essas atividades, sabores, aromas que eram frequentes no cotidiano, agora resistem apenas em parte. “Hoje, o rio não enche mais como antes. O clima mudou e o terreno enfraqueceu”, continua.

As árvores, os pastos e até as plantações já não têm a mesma força. Passarinhos ainda existem, diz ele, mas muitos foram capturados ou extintos. Agora, muitos estão apenas catalogados em registros antigos, mas ausentes no cenário atual do Cerrado.

“Nosso Cerrado tá pedindo socorro”, ele diz com a voz firme e o olhar sereno. “Antigamente, a gente queimava na época certa só pra limpar o terreno. Hoje, o povo bota fogo em qualquer tempo, usa veneno e isso mata tudo, os peixes, as abelhas, o próprio alimento”, lamenta o líder comunitário.

Para o Sr. Sirilo, o problema não é o fogo em si, mas o desequilíbrio. O que antes era manejo e sabedoria virou destruição acelerada. Entre lembranças e conselhos, ele reforça que o futuro depende da união e do respeito à natureza. “A gente precisa ensinar os jovens a cuidar do Cerrado, porque é ele que dá a água, o ar e o alimento. Preservar é mais do que proteger o lugar onde se vive: é garantir a continuidade de uma história”, defende.

 

Juventude, turismo e esperança no território Kalunga

Uma das jovens que vem colocando o conselho do líder ancião em prática é Estefanny Maia, de 20 anos, guia comunitária local. Ela vem observando mudanças de perto no dia a dia do trabalho. “As estiagens estão mais longas e os incêndios, mais intensos. Muitos poços que antes estavam cheios secaram completamente. Isso afeta a paisagem e as cachoeiras”, destaca Maia.

 

Fig 4. Cachoeira Santa Bárbara, um dos cartões-postais do território Kalunga, com suas águas cristalinas cercadas pela natureza exuberante. Crédito: Júlio César dos Santos

 

Quando as cachoeiras perdem volume, o encanto visual some. E quando o tempo muda demais, as trilhas são interditadas. A verba que viria do turismo diminui. Mas a guia comunitária ainda acredita na força educativa desse tipo de visita. “O turismo comunitário educa e transforma visitantes em aliados. Quando as pessoas entendem a importância do Cerrado, saem daqui com vontade de cuidar também”, ressalta a jovem.

O turismo de base comunitária, ou seja, turismo gerenciado pelas próprias comunidades locais é justamente essa ponte entre preservação ambiental e visitação, tornando-se um aliado no combate às mudanças do clima. No território Kalunga, os próprios moradores conduzem passeios por trilhas, cachoeiras e sítios históricos, compartilhando cultura, histórias e conhecimento sobre a região. Esse modelo valoriza a tradição local e garante que os benefícios do turismo retornem diretamente à comunidade.

Ao mesmo tempo, os moradores atuam na defesa do território, protegendo áreas naturais, nascentes e rios, e mantendo vivas suas tradições culturais. Eles também têm associações, projetos educativos e parcerias com pesquisadores e órgãos ambientais. Todas essas ações buscam equilibrar a preservação ambiental com o desenvolvimento sustentável do turismo, garantindo que a história de seu povo e os direitos sejam respeitados.

 

Comunicação popular no combate às mudanças climáticas

Fig 5. Integrantes do território Kalunga e jovens comunicadores durante a inauguração da Rádio Kalungueira 88,6 FM. Crédito: Rádio Kalungueira

 

Outra iniciativa Kalunga que ajuda a preservar a natureza é a comunicação que vem do próprio quilombo. “A comunicação popular é a ponte entre a nossa realidade e o mundo”, afirma Fátima Tertuliano, de 29 anos, jornalista e idealizadora da Rádio Kalungueira. Para ela, esse tipo de comunicação denuncia e, ao mesmo tempo, pode cultivar, preservar a cultura, promover o saber ancestral e colocar ciência e conhecimento tradicional no mesmo espaço.

A Rádio Kalungueira aborda temas diversos, como agrofloresta, ciclo da água, o trabalho de parteiras, rezadeiras e jovens artistas. “É ferramenta de mobilização, resistência e esperança”, prossegue Tertuliano. “Quando coloco a fala de um cientista ao lado do depoimento de uma anciã que percebe o atraso das chuvas, não estou opondo saberes. Estou somando”, explica.

As vozes se entrelaçam em uma mensagem clara: preservar o Cerrado é preservar a vida. Como diz Sr. Sirilo, com sua experiência e voz firme:

— Se nós estamos aqui pra preservar o meio ambiente, não podemos matar com veneno. A pior praga que existe hoje é o veneno. Precisamos voltar a cuidar da terra com as mãos, com respeito, assim como nossos antepassados faziam.

Essa frase ecoa como chamamento para o território Kalunga, para o Brasil todo, para todos os que ainda acreditam que a natureza deve ser respeitada, não sacrificada. O Cerrado não é só paisagem. É memória, cultura, sustento, saúde, e cabe a cada um abraçar esse cuidado.

 

Fontes consultadas:

Souto, Camila de Souza. Usos do fogo no território Quilombola Kalunga: práticas e percepções. 2023. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Sustentável) – Universidade de Brasília. Disponível em: http://repositorio2.unb.br/bitstream/10482/51003/1/CamilaDeSouzaSouto_DISSERT.pdf. Acesso em: 29 out 2025.

Fabio, Andre Cabette. Brazil’s Kalunga people at frontline of nation’s climate fight.Context. Disponível em: https://www.context.news/nature/brazils-kalunga-people-at-frontline-of-nations-climate-fight?utm_source=chatgpt.com. Publicação em: 15 out 2024. Acesso em: 29 out 2025.

Bustamante, Mercedes. O Cerrado e as mudanças climáticas. Cienc. Cult. vol.76 no.3 São Paulo July/Sept. 2024. http://dx.doi.org/10.5935/2317-6660.20240069

 

Por Júlio César Paulino dos Santos

Esse texto é fruto de uma chamada de artigos exclusiva para participantes da 3ª edição da “Oficina de Jornalismo de Ciência e Saúde para Comunicadores Populares”, realizada entre 21 e 23 de agosto de 2025 de forma virtual.

Data Publicação: 25/02/2026