
Fig 1. Vacinar é fundamental para prevenir doenças, principalmente, na primeira infância (0 a 6 anos). Crédito: Peter Ilicciev/Fiocruz Imagens
Descubra o que é o fenômeno da hesitação vacinal e alguns fatores que estão por trás de baixas taxas de imunização da população brasileira
Você já ouviu falar em hesitação vacinal? De acordo com o Ministério da Saúde, a expressão refere-se ao atraso ou à recusa em aceitar vacinas recomendadas, mesmo quando os serviços de vacinação estão disponíveis. Trata-se de um fenômeno complexo e dinâmico, que varia conforme o tempo, o contexto, o território e o tipo de imunizante. Mas o que leva as pessoas a não se vacinarem?
No caso da hesitação vacinal, existem múltiplos fatores. Podemos citar, por exemplo, a falta de confiança nas vacinas e nas instituições. A percepção de risco, ou seja, o medo do imunizante causar efeitos adversos sérios. Há ainda a baixa percepção da gravidade de doenças que podem ser prevenidas com a vacinação. Outros fatores que podem contribuir são também o contexto socioeconômico e cultural, além da comunicação.
Notícias falsas e desinformação são um problema
Segundo Edson Moreira, infectologista, especialista em vacinas e chefe do Laboratório de Epidemiologia Molecular e Bioestatística da Fiocruz Bahia, uma das principais causas para a hesitação vacinal, ou seja, a baixa cobertura de vacinas na população é a disseminação de notícias falsas e teorias da conspiração. “A gente não pode ficar à mercê dessa política de medo, de pânico”, afirma em entrevista ao Invivo.
A desinformação é um problema grave, especialmente, no Brasil. Isso é o que mostra o estudo internacional ‘Desinformação Antivacina na América Latina e no Caribe (Anti-vaccine Disinformation in Latin America and the Carribean)’. O trabalho, que foi publicado em outubro de 2025, mapeou 87 milhões de mensagens publicadas em comunidades da rede social Telegram. A análise considerou as publicações que circularam entre 2016 e 2025 em 18 países da América Latina e do Caribe. A pesquisa mostrou que o Brasil lidera a desinformação sobre vacinas na América Latina.
As vacinas são uma das principais ferramentas de prevenção de doenças infecciosas. Moreira destaca que elas salvam vidas e eliminam doenças e sofrimento desnecessário. “Vacinar é tão importante quanto beber água limpa”, observa.

Fig 2. Uma das alegações falsas mais frequentes no estudo que avaliou a desinformação antivacina na América Latina e no Caribe foi que a vacina causaria morte súbita. Crédito: Raquel Portugal/Fiocruz Imagens
Outros fatores que ampliam a hesitação vacinal
Existem ainda outros fatores que podem contribuir para reduzir as taxas de vacinação na população, entre eles, a falta de acesso aos imunizantes.
A vacina contra catapora, por exemplo, só foi oficialmente inserida no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2013. O imunizante é ofertado por meio da vacina tetraviral, que também protege contra sarampo, caxumba e rubéola. Ela está disponível para bebês de 15 meses e crianças de até dois anos de idade.
A tetraviral ainda não era ofertada no SUS quando os filhos de duas moradoras de Camaçari (BA) eram bebês. Sem a proteção, os adolescentes, que agora têm 15 anos de idade, contraíram catapora. A catapora é uma doença viral bastante comum que pode afetar pessoas de todas as idades. Ela pode causar sintomas desconfortáveis e, em alguns casos, complicações graves.
“A catapora pode ser uma doença desafiadora para as famílias, especialmente quando as vacinas não estão acessíveis”, disse uma das mães, que preferiu não se identificar. Hoje, essas famílias estão tomando as precauções necessárias para se proteger e evitar futuras complicações. A experiência delas revela a importância da vacinação gratuita no SUS e sobre o quanto é importante conscientizar as famílias sobre as campanhas nacionais de vacinação.

Fig 3. Erupções na pele são um dos sintomas da catapora. A doença também pode causar outros problemas como febre baixa, mal-estar, cansaço, dor de cabeça e perda de apetite. Crédito: Ronny Ager-Wick/Wihimedia Commons
O enfrentamento à baixa cobertura vacinal
A hesitação vacinal e a baixa cobertura de imunização são problemas crescentes, que preocupam especialistas em saúde pública. O infectologista Edson Moreira ressalta que as vacinas são seguras e salvam vidas. Ele reforça ainda que os profissionais de saúde e de educação têm um papel fundamental na conscientização sobre a importância da vacinação.
Embora alguns imunizantes apresentem taxas de vacinação um pouco mais altos, os dados do Ministério da Saúde mostram que o país ainda está distante da meta ideal de cobertura vacinal para vários deles. Em 2024, por exemplo, a vacina de catapora, que deveria ser aplicada em 95% das crianças em idade recomendada, atingiu somente 73% delas. No Nordeste, a cobertura vacinal ficou em 65,3%, o menor índice de todas as regiões.
Felizmente, nem todas as notícias são ruins: três vacinas tiveram cobertura vacinal acima de 95% em 2024. Uma delas foi a BCG, que previne contra as formas graves da tuberculose, com taxa de vacinação de 97,8%. A segunda foi a vacina contra hepatite B, com cobertura de 96,2%. A outra que apresentou melhor desempenho foi a primeira dose da tríplice viral, com 95,7% de cobertura vacinal. Esta última protege contra sarampo, caxumba e rubéola.
Os dados mostram que, apesar de avanços, a cobertura vacinal infantil ainda segue insuficiente para a maioria dos imunizantes.
Moreira informa que, com a vacina, o corpo é ensinado a se proteger de doenças.
Uma estratégia que pode fortalecer a vacinação é a ação em escolas. Quando solicitado, a equipe de saúde vai até as escolas para vacinar os funcionários e alunos, garantindo que todos estejam protegidos.
A vacinação é uma das melhores formas de manter as pessoas saudáveis. O Ministério da Saúde disponibiliza dezenas de vacinas para todas as faixas etárias de graça nas unidades básicas de saúde.
Há ainda a vacinação extramuros, uma estratégia em que a equipe de saúde sai da unidade e vai até as ruas e quarteirões para vacinar a população. As campanhas de vacinação também são ferramentas importantes para a promoção da saúde e prevenção de doenças.

Fig 4. SUS oferece vacinação gratuita a todas as faixas etárias. Crédito: Peter Ilicciev/Fiocruz Imagens
Fontes consultadas:
Brasil. DATASUS. Ministério da Saúde. Disponível em: https://datasus.saude.gov.br/. Acesso em: 03 nov 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Hesitação Vacinal. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao/esavi/hesitacao-vacinal. Acesso em: 03 nov 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Vacinação. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/vacinacao. Acesso em: 03 nov 2025.
Brasil. Ministério da Saúde – Cobertura Vacinal – Residência. Disponível em: https://infoms.saude.gov.br/extensions/SEIDIGI_DEMAS_VACINACAO_CALENDARIO_NACIONAL_COBERTURA_RESIDENCIA/SEIDIGI_DEMAS_VACINACAO_CALENDARIO_NACIONAL_COBERTURA_RESIDENCIA.html. Acesso em: 03 nov 2025.
Cruz, Elaine Patricia. Brasil lidera desinformação sobre vacina na América Latina, diz estudo. Agência Brasil. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-10/brasil-lidera-desinformacao-sobre-vacina-na-america-latina-diz-estudo. Publicação em: 17 out 2025.
Silva, Ergon Cugler de Moraes, Ricard, Julie C., Alves, Mario Aquino et al. Anti-vaccine Disinformation in Latin America and the Caribbean: Mapping 175 Alleged Harms and 80 False Antidotes in Conspiracy Theory Communities on Telegram. zenodo. october 17, 2025. https://doi.org/10.5281/zenodo.17374340.
Por Nadja Vilas Boas
Esse texto é fruto de uma chamada de artigos exclusiva para participantes da 3ª edição da “Oficina de Jornalismo de Ciência e Saúde para Comunicadores Populares”, realizada entre 21 e 23 de agosto de 2025 de forma virtual.
Data Publicação: 22/01/2026
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