
Fig 1. Estudos mostram que a maioria das pessoas acredita na existência da crise climática. Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil
Veja como nossos comportamentos podem ser moldados pela forma como percebemos a crise climática
Você acredita nas mudanças climáticas? Um levantamento de 2025 indica que 7% dos brasileiros negam a existência desse fenômeno. A pesquisa, que foi desenvolvida pelo instituto de pesquisa Ipsos/Ipec e pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS), mostra um aumento no percentual em relação a 2021, quando 4% negavam as mudanças climáticas.
Desde já, a forma como percebemos, aceitamos ou rejeitamos que o clima está mudando e também nossa percepção acerca das causas dessa mudança, gravidade e confiança na ciência são conhecidas como ‘crenças climáticas’. Vamos saber mais sobre esse assunto e descobrir como ele impacta o nosso dia a dia.
Em entrevista ao Invivo, Nicolas de Oliveira Cardoso, psicólogo e pós-doutorando em comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) com ênfase em combate à desinformação, explica que, na psicologia, as crenças são a base para as atitudes. “Quando essas construções são moldadas por desinformação, elas podem levar ao desengajamento ou à resistência ativa contra políticas ambientais essenciais”, ressalta.
E como isso funciona na prática? Segundo o especialista, as crenças podem moldar comportamentos. Ou seja, acreditar ou não nas mudanças climáticas pode impactar a forma como consumimos, a maneira como utilizamos a água, o transporte que escolhemos (mais ou menos poluente) e até se apoiamos ou não determinadas políticas públicas. De forma indireta, as crenças podem também fortalecer a polarização social, ou seja, contribuir para a divisão da sociedade em dois grupos com visões de mundo opostas.
Descrença no papel do homem chama atenção
Quando se trata de desinformação, o principal problema, segundo Cardoso, não é mais a existência das mudanças climáticas, mas se são causadas pelo ser humano. “Enquanto a ciência tem 99% de consenso sobre a causa humana, parcelas significativas da população (até 29% em alguns países desenvolvidos, incluindo Estados Unidos) ainda acreditam que são ‘ciclos naturais’”, afirma o pesquisador.
De fato, a pesquisa do Ipsos/Ipec e colaboradores de 2025 apontou que 74% dos brasileiros atribuem o aquecimento global à atividade humana.
Política, identidade e cultura contribuem para as crenças climáticas

Fig 2. Cultura da desconfiança se caracteriza pela desconfiança generalizada na ciência e nas instituições tradicionais. Crédito: FilippoBacci/Getty Images
Sendo assim, para descobrir o que está por trás das crenças climáticas no Brasil, Cardoso conduziu um estudo com 1.503 pessoas. A pesquisa, que foi realizada no contexto do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais (INCT-DSI), foi publicada em fevereiro de 2026. Os resultados mostraram que a orientação política foi o fator mais importante para diferenciar quem aceita a ciência climática de quem a questiona no país. Mas não é só ela!
Os dados revelaram que identidade e cultura também se agregam à orientação política. “Esses aspectos atuam através de um mecanismo chamado cognição protetora de identidade. Isso significa que as pessoas tendem a filtrar informações para que elas se ajustem aos valores de seu grupo social ou político”, explica o pesquisador.
Segundo Cardoso, existe uma cultura da desconfiança, ou seja, alguns grupos de pessoas desconfiam de forma generalizada não só da ciência, mas também do governo, das universidades e de outras instituições tradicionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e Organização Mundial da Saúde (OMS) e da mídia.
O ceticismo, ou seja, a atitude de questionar o conhecimento, fatos, opiniões ou crenças funciona, de acordo com o psicólogo, como um ‘escudo cultural’:
— Aceitar a crise climática e/ou que sua principal causa é antropogênica (causada pelo ser humano), acaba sendo percebido por essas pessoas como uma ameaça direta à sua autonomia (medo de regras e leis que digam como devem viver), à sua estabilidade econômica (medo de perder o emprego em setores tradicionais, como o agronegócio ou a indústria) e à sua identidade (o receio de que seus valores e tradições sejam julgados como errados). Negar o problema, portanto, é uma forma de proteger a segurança do mundo que eles já conhecem e no qual se sentem confortáveis, explica o psicólogo.
Como agir frente à desinformação sobre a crise climática?
A desinformação está aí, mas isso não significa que não possamos fazer nada para combatê-la! Para Cardoso, o primeiro passo é abandonar a ideia de que o problema é causado apenas por ‘déficit de conhecimento’, ou seja, não basta fornecer mais dados científicos para convencer as pessoas.
Por outro lado, existem outras estratégias que podem ser mais eficazes no combate à desinformação climática, por exemplo, adaptar a mensagem para que ela alcance diferentes grupos. “Por exemplo, falar sobre ‘proteção da família e da economia local’ pode ser mais eficaz para certos públicos do que falar em ‘biodiversidade global'”, afirma o pesquisador.
Outro aspecto importante é combater a desconfiança institucional. Isso pode ser feito a partir do fortalecimento da confiança de mediadores locais e comunitários, em vez de depender apenas de autoridades distantes. Também pode ser utilizada uma abordagem emocional e moral. Ou seja, é possível passar a tratar a crise climática como uma questão de responsabilidade geracional e cuidado, conectando os dados científicos com a realidade vivida pelas pessoas.
A solução precisa ser estrutural

Fig 3. A queima de combustíveis fósseis é uma das principais fontes de emissão de gases do efeito estufa. Crédito: rui_noronha/Getty Images
Nesse sentido, reciclar, reduzir o uso de plástico, economizar água… são alguns dos exemplos de ações individuais que podem contribuir para a preservação do meio ambiente. Segundo Cardoso, adotar esses hábitos é fundamental para criar uma cultura de cuidado. Mas será que isso basta para solucionar o problema da crise climática?
Infelizmente, a reposta é não. Não é possível pensar em controle da crise climática sem o envolvimento dos governos e das indústrias. E os estudos reforçam esse dado. Segundo o pesquisador, o relatório Carbon Majors (2024) revela que, desde 2016, apenas 57 entidades são responsáveis por 80% das emissões globais de gás carbônico (CO2). Além disso, dados de 2023 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, em inglês) mostram que o G20, fórum internacional que reúne as maiores economias do mundo, responde por cerca de 76% das emissões globais.
— Vender a ideia de que a solução depende exclusivamente da ‘economia doméstica’ do cidadão comum é, muitas vezes, uma estratégia de desvio de responsabilidade (greenwashing). A ação individual mais potente não é apenas reduzir o consumo, mas exercer pressão política para que governos e indústrias adotem mudanças sistêmicas. O comportamento individual serve como o combustível para essa exigência pública, conclui Cardoso.
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Fontes consultadas:
ITS Rio. Mudanças climáticas na percepção dos brasileiros 2025. Disponível em: https://itsrio.org/pt/publicacoes/mudancas-climaticas-na-percepcao-dos-brasileiros-2025/. Acesso em: 5 mar 2026.
Cardoso, Nicolas de Oliveira, de Oliveira, Thaiane Moreira, Massarani, Luisa et al. Mapping climate belief profiles in Brazil: A cluster analysis of polarization and mistrust. Journal of Environmental Psychology, Volume 109, 2026, https://doi.org/10.1016/j.jenvp.2025.102885.
InfluenceMap. Carbon Majors: 2024 Data Update. Disponível: https://influencemap.org/briefing/Carbon-Majors-2024-Data-Update-35466. Publicação em: jan 2026. Acesso em: 05 mar 2026.
UNEP. Emissions Gap Report 2023. Disponível em: https://www.unep.org/resources/emissions-gap-report-2023. Publicação em: 20 nov 2023. Acesso em: 05 mar 2026.
Por Teresa Santos
Data Publicação: 13/03/2026
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