Figura 1. Ventilador de pressão negativa, popularmente conhecido como pulmão de aço. Crédito: CDC/GHO/Mary Hilpertshauser / Wikimedia Commons

 

Entenda como o pulmão de aço salvou muitas vidas no século passado

Você sabia que este objeto curioso, que mais parece um equipamento industrial, ajudou a salvar muitas vidas no início do século 20? Popularmente conhecido como pulmão de aço, o ventilador de pressão negativa faz parte da história da medicina como uma invenção tão estranha quanto revolucionária, que marcou profundamente pacientes que precisaram utilizá-lo.

Tecnologia para sobrevivência

Hoje é quase impensável imaginar um adulto (menos ainda uma criança!) deitado dentro de um equipamento como este. Mas, na primeira metade do século 20, o pulmão de aço poderia ser a única possibilidade de sobrevivência de pessoas com doenças respiratórias graves. Ele simulava o movimento da caixa torácica e do diafragma no processo de respiração, de modo a forçar os movimentos de respiração natural pelo paciente.

Seu princípio era relativamente simples: o enfermo era colocado dentro do cilindro metálico, com a cabeça para fora. O aparelho criava variações de pressão ao redor do tórax de forma que conseguia induzir a entrada e saída de ar nos pulmões, permitindo que pessoas com graves dificuldades respiratórias conseguissem sobreviver. Ele foi uma das primeiras tecnologias desenvolvidas para a ventilação pulmonar de forma mecânica no mundo.

Epidemia de poliomielite e o uso dos respiradores mecânicos

O uso do pulmão de aço aplicava-se em pessoas com qualquer tipo de comprometimento respiratório voluntário. Foi muito utilizado no tratamento da tuberculose, em vítimas de trauma pulmonar acidental, mas principalmente no tratamento de pacientes com poliomielite em estado grave.

A poliomielite é uma doença extremamente contagiosa e que atinge o sistema nervoso central, podendo provocar desde sintomas leves — como febre, dor de cabeça, fadiga e mal-estar — até quadros graves de paralisia. Quando a infecção comprometia os músculos responsáveis pela respiração, a vida do paciente só podia ser mantida com o auxílio de aparelhos como o pulmão de aço.

 

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Os primeiros registros da poliomielite no Brasil datam da década de 1910, mas é a partir dos anos 1930 e 1940 que os surtos começam a ganhar destaque na imprensa e a gerar preocupação sanitária. A década de 1950 foi marcada por uma grande epidemia no Rio de Janeiro, então capital federal do país, o que trouxe a doença para o centro do debate público.

Até a criação da primeira vacina, em 1955, não existia um tratamento para a doença em si. Tudo que a medicina da época podia fazer eram medidas de isolamento dos doentes e o tratamento dos sintomas que a poliomielite causava, em seus diferentes quadros de gravidade.

O emprego do pulmão de aço como tratamento para pacientes com poliomielite caiu em declínio conforme as campanhas de vacinação foram capazes de diminuir os casos da doença. Em paralelo a isto, houve muitos avanços na medicina na compreensão de como funciona a respiração humana, o que viabilizou a criação de outros equipamentos menos invasivos.

Saiba mais sobre este equipamento cheio de história, que faz parte do acervo museológico do Museu da Vida Fiocruz, na seção Objeto em Foco do site do MVF.

Fontes consultadas:

CAMPOS, A. L. V. de; NASCIMENTO, D. R. do; MARANHÃO, E. “A história da poliomielite no Brasil e seu controle por imunização”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 10, suplemento 2. Rio de Janeiro, 2003, pp. 573-600.

CHEN, Tao An; HUNG, Wen Chung. “John Haven Emerson (1906-1997): The Ultimate Pioneer of the ‘Iron Lung’”. Cureus, 16(9), ed. 69964, 2024.

DE FARIA, Maria Fátima Carazza. Pulmão de aço: preservação de um patrimônio científico da área da saúde. Dissertação em Preservação em Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde – Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, 2018.

FRUTUOSO, Rodrigo de Freitas. Evolução dos ventiladores pulmonares. Trabalho de conclusão de curso (Curso Superior de Tecnologia em Sistemas Biomédicos) – Bauru: Faculdade de Tecnologia FATEC Bauru, 2017. Disponível em: <https://ric.cps.sp.gov.br/handle/123456789/10700>. Acesso em: 10 set. 2025.

MACIEL, Laurinda Rosa; ALMEIDA, Anna Beatriz de Sá. “Controle e erradicação de uma doença: história da poliomielite e seus atores”. Revista Tempo e Argumento, vol. 2, n. 1, janeiro-junho. Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina, 2010, pp. 200-220.

POMATTI, Angela Beatriz. De sucata à museália: a trajetória de um objeto museológico, o Pulmão de Aço do Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul. Trabalho de conclusão de curso – Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2016. Disponível em: <https://lume.ufrgs.br/handle/10183/147076>. Acesso em: 10 set. 2025.

SAMPAIO, Daniel. “Hospital Municipal Jesus: Vila Isabel”. Projeto Memórias da Saúde Carioca. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Saúde, 2023.

 

Por Inês Nogueira e Maria Alana Alves Rodrigues

Data Publicação: 18/12/2025