Figura 1. Certos fungos perigosos para a saúde são encontrados em cavernas e outros locais fechados, úmidos e com fezes de animais. Créditos: spooh/iStock

Doenças fúngicas podem afetar plantas, animais e seres humanos

Os fungos desempenham papéis fundamentais para o equilíbrio da natureza, como a decomposição. Porém, alguns fungos podem causar doenças em plantas e animais. O quarto texto da série No Mundo dos Fungos foi dedicado às micoses, às doenças causadas pelos fungos. Agora, você vai conhecer um pouco mais sobre algumas doenças fúngicas.

Existem mais ou menos 120 mil espécies de fungos conhecidas, vivendo nos mais variados ambientes. Cerca de 300 espécies apenas podem causar doenças em seres humanos. Quando entramos contato com os fungos, nosso corpo pode ser capaz de eliminar esse microrganismo. Porém, dependendo do tipo de fungo e da nossa resposta imunitária, uma doença pode se estabelecer.

 

Doenças fúngicas nas férias? Cuidado extra ao visitar cavernas e grutas

Histoplasma, Paracoccidioides, Coccidioides e Cryptococcus são gêneros de fungos frequentemente encontrados no ambiente. Eles não precisam de nós para completar seu ciclo de vida nem são transmitidos de uma pessoa para outra. O contágio acontece pelo ar, quando inalamos esporos (estruturas de reprodução minúsculas que os fungos liberam no ambiente). Portanto, atenção para regiões consideradas endêmicas, isto é, aquelas áreas que apresentam grande incidência de determinadas doenças fúngicas.

Cavernas, grutas, pombais, galinheiros, troncos ocos de árvores, telhados e construções antigas fechadas são locais com grandes chances de contaminação, já que fungos adoram viver em excrementos de aves ou morcegos, decompondo essa matéria orgânica. Quando pessoas entram nesses locais para explorar o ambiente, escavar o solo ou mesmo para fazer uma limpeza, os esporos presentes nos excrementos começam a circular no ar. Se os esporos forem inalados, eles chegam facilmente aos nossos pulmões e podem causar infecção respiratória.

Você pode conhecer abaixo algumas dessas doenças fúngicas.

 

Histoplasmose

Conhecida popularmente como doença da caverna, a histoplasmose, causada pelo fungo Histoplasma capsulatum, é comum nos Estados Unidos e na América Latina, incluindo o Brasil. Ambientes fechados, úmidos e povoados por morcegos e seus excrementos, como cavernas e grutas, são os preferidos desse fungo. Mas se engana quem pensa que só quem frequenta esses lugares pode pegar essa doença. Regiões arborizadas e outros locais onde o solo seja rico em fezes de aves também são consideradas de risco. Inclusive, foi noticiado um recente surto na cidade de Nova Friburgo, interior do estado do Rio de Janeiro, no qual mais de 10 pessoas foram diagnosticadas com histoplasmose após um mutirão de limpeza em um antigo orfanato abandonado.

 

Figura 2. Construções abandonadas podem abrigar diversos tipos de fungos, alguns deles perigosos para a saúde. A limpeza desses locais deve ser feita por pessoas utilizando equipamentos de proteção, como luvas e máscaras do tipo N95 ou equivalente. Créditos: alkir/iStock

 

Coccidioidomicose

Outro fungo encontrado frequentemente em solos ricos em excrementos é o Coccidioides, causador da coccidioidomicose, também conhecida como doença do vale. Típica das regiões semiáridas das Américas, como o sudoeste dos Estados Unidos e o México, essa infecção fúngica também ocorre em áreas rurais da região do nordeste brasileiro e afeta municípios atingidos por secas recorrentes e pobreza. Muitos casos brasileiros são relacionados à caça de tatus, uma prática que é ilegal. Nela, o caçador revolve o solo e entra nas tocas em busca do animal. Assim, o solo seco e contaminado por fungos representa um risco para a inalação de esporos e desenvolvimento da doença.

 

Figura 3. Além de ser ilegal, a caça e o consumo de tatus podem causar doenças sérias. Créditos: Foto4440/iStock.

 

Paracoco

A paracoccidioidomicose, também conhecida por paracoco, é causada por espécies do fungo Paracoccidioides. Essa doença também é muito associada a zonas rurais. Trabalhadores agrícolas estão entre os mais afetados, pois podem inalar esporos ao remexer o solo contaminado. Um surto dessa doença aconteceu após a construção da Rodovia Raphael de Almeida Magalhães, também conhecida como Arco Metropolitano, no estado do Rio de Janeiro. Esse episódio foi relacionado ao desmatamento e remoção maciça de terra durante a construção, além de uma possível associação com o aumento da umidade do solo, que favorece o aparecimento dos esporos e sua dispersão.

 

Figura 4. Trabalhadores rurais e pessoas que lidam diretamente com o solo correm mais risco de se exporem a esporos de certos fungos causadores de doenças. Créditos: Rodolfo Clix/Pexels.

 

Para saber mais sobre o paracoco, dê uma olhada nesses vídeos aqui embaixo, produzidos pela Fiocruz.

 

 

 

 

Criptococose

Espécies de Cryptococcus também são típicos contaminantes de fezes de pombos e causadores da criptococose. Ela começa com uma infecção respiratória e pode ser tornar grave a ponto de causar meningite. Como as outras infecções, a transmissão ocorre quando os fungos presentes nas fezes ressecadas se espalham pelo ar, são inalados e chegam aos pulmões. Esses fungos são também encontrados com frequência em ocos de árvores. A doença é observada em todas as partes do mundo.

 

 

Figura 5. Fotografias de células do fungo Cryptococcus neoformans visto ao microscópio de luz. As células (círculos menores) são envoltas por uma estrutura chamada cápsula (círculos maiores). A foto à esquerda utiliza a técnica de microscopia de fluorescência, evidenciando a cápsula (verde) e a parede das células (azul). A foto à direita utiliza a técnica de coloração com tinta nanquim. O pigmento do nanquim se espalha ao redor do fungo. A cápsula dos fungos mede cerca de 0,001 cm, ou seja, muito pequena para ser vista a olho nu. Créditos: Fernanda Fonseca / CDTS / Fiocruz

 

Contaminação por fungos: como escapar dessa?

Como já destacado, pessoas com sistema imunitário comprometido são as que normalmente desenvolvem as doenças fúngicas. Por isso, essas pessoas devem tomar algumas precauções para que os fungos secos presentes no ambiente não sejam dispersos no ar. Alguns desses cuidados são: evitar atividades que envolvam revolver o solo onde há excrementos, evitar limpeza e demolição de ambientes antigos e fechados, e, quando não for possível, utilizar máscaras e luvas de proteção.

 

Como eu posso saber se estou doente?

Na maior parte das vezes, quando pessoas com o sistema imunitário saudável (imunocompetentes) são expostas a esses fungos, elas não apresentam sintomas ou, quando apresentam, eles podem desaparecem por conta própria.

Porém, se a doença de desenvolve, é importante saber que todas essas infecções fúngicas, compartilham sinais muito parecidos, que incluem tosse, febre, falta de ar, cansaço, dores do corpo e, em alguns casos de paracoccidioidomicose, podem apresentar lesões de pele.

Como os sintomas também se assemelham a outras infecções virais ou bacterianas, é comum que as doenças fúngicas sejam diagnosticadas de modo incorreto e por isso tratadas de forma inadequada, o que pode tornar o caso mais grave. Então, se você esteve em alguma zona de risco e está apresentando sintomas característicos por mais de uma semana sem melhora, consulte seu médico e converse sobre a possibilidade de ter tido contato com fungos.

A Fundação Oswaldo Cruz possui um centro de referência em Micologia que recebe pacientes indicados por serviços de saúde. É o Laboratório Nacional de Referência em Micoses Sistêmicas no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, no Campus de Manguinhos no Rio de Janeiro. Saiba mais.

 

Referências:

About Fungal Diseases. Disponível em: <https://www.cdc.gov/fungal/about-fungal-diseases.html>

Cordeiro R, Moura S, Castelo-Branco D, Rocha MF, Lima-Neto R, Sidrim JJ. Coccidioidomycosis in Brazil: Historical Challenges of a Neglected Disease. J Fungi (Basel). 2021 Jan 27;7(2):85. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7911456/>

Denham ST, Wambaugh MA, Brown JCS. How Environmental Fungi Cause a Range of Clinical Outcomes in Susceptible Hosts. J Mol Biol. 2019 Jul 26;431(16):2982-3009. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6646061/>

do Valle ACF, Marques de Macedo P, Almeida-Paes R, Romão AR, Lazéra MDS, Wanke B. Paracoccidioidomycosis after Highway Construction, Rio de Janeiro, Brazil. Emerg Infect Dis. 2017 Nov;23(11):1917-1919. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5652422/>

Paracoccidioidomicose. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/p/pcm>

Perigoso ato de caçar e consumir carne de tatu. Disponível em: <https://sbmt.org.br/perigoso-ato-de-cacar-e-consumir-carne-de-tatu/>

 

Por Fernanda Fonseca

Data Publicação: 24/01/2023