Há milhares de anos, esses seres são usados na fabricação de produtos essenciais na vida das pessoas. E, com as técnicas recentes de biotecnologia, o “trabalho” dos fungos só vai aumentar.

Quando conhecemos um pouco sobre os fungos, ficamos impressionados com a diversidade e importância desses organismos. Fungos são grandes decompositores e desempenham papéis importantes no ciclo de carbono e na reciclagem de nutrientes. Agora você vai conhecer porque esses seres são considerados essenciais também no campo da biotecnologia, da agricultura e da indústria.

E aí, você conhece algum produto fabricado com a ajuda de fungos?

Fermentação
Fungos microscópicos e unicelulares, chamados de leveduras, transformam açúcar em álcool e gás carbônico. Essa transformação, chamada fermentação, libera a energia que o fungo precisa para sobreviver.

A fermentação é fundamental para a produção de pães e outros alimentos. O fermento biológico, vendido em grãos ou tabletes, contém a levedura Saccharomyces cerevisiae. Ao fermentar o amido (um tipo de açúcar), a levedura
produz milhões de pequenas bolhas de gás carbônico que fazem o pão crescer. Sem as leveduras, nosso café da manhã estaria perdido!

Sabe aqueles “furinhos” no pão? Cada furinho é uma pequena bolha
formada pelo gás carbônico liberado pelas leveduras durante a fermentação.
Crédito: Petr Kratochvil/Public Domain Pictures.

O álcool é outro produto da fermentação. Várias espécies de leveduras são usas para produzir o etanol, tipo de álcool usado como combustível. O etanol é usado também em produtos de higiene e limpeza.

No Brasil, o etanol combustível é produzido a partir da fermentação da
cana-de-açúcar. Crédito: Mark Hillary /Flickr.

Enzimas produzidas por fungos
Muitos fungos produzem enzimas, substâncias que degradam certos materiais. As enzimas dos fungos são usadas em diversas indústrias. Por exemplo, fungos produtores de lipases, enzimas que quebram gorduras, são empregados na produção de detergentes que são menos tóxicos para o ambiente.

Detergentes com enzimas são importantes na limpeza de instrumentos médicos e, no dia a dia, são usados também para facilitar a remoção de manchas de roupas.

No Brasil, diversos produtos vendidos para lavar roupa contém pelo menos
um tipo de enzima. Crédito: Tereza Costa/Invivo

Existem também fungos que produzem celulase, enzima que quebra celulose. A celulose é uma substância produzida pelas plantas e é o principal componente do papel. Por isso, esses fungos são utilizados na produção de papel reciclado e no melhoramento de tecidos de algodão.

Sabe aquele jeans macio e meio desbotado que não sai de moda? O efeito
desgastado (ou estonado) muitas vezes utiliza enzimas produzidas por fungos.
Crédito: Hut Rueng/Public Domain Pictures.

A enzima celulase também é empregada na produção de bioetanol, também chamado de etanol de segunda geração. Esse combustível é produzido a partir da palha ou bagaço de cana-de-açúcar descartados na produção de etanol comum, de primeira geração. Cientistas têm estudado certos fungos conseguem utilizar esses restos que iriam para o lixo para produzir mais álcool. O setor industrial tem investido muito nessa tecnologia para tornar a produção de etanol ainda mais eficiente e sustentável.

Muitas outras pesquisas estão sendo realizadas para reduzir a contaminação do meio ambiente utilizando fungos e suas enzimas. Enzimas fúngicas também podem contribuir com a biodegradação de plásticos, o que é um importante problema ambiental global. Você acredita que em 2019 o mundo produziu cerca de 370 milhões de toneladas de plástico e todos os anos 25 milhões de toneladas de plástico sintético são acumuladas na costa marinha e em ambientes terrestres? E qual a relação desse lixo com os fungos? Enzimas produzidas por alguns fungos são capazes
de acelerar a decomposição desses materiais, já que a degradação natural é um processo extremamente lento que pode durar até 1000 anos em alguns tipos de plástico.

Fungos na indústria farmacêutica
Sem os fungos usados na indústria farmacêutica, é bem provável que muitos de nós também estivéssemos em perigo e, talvez nem existíssemos. A penicilina , molécula produzida por um fungo, salvou e salva muitas vidas. Sua ação
antibiótica foi descoberta acidentalmente em 1928 pelo cientista inglês Alexander Fleming (1881-1955) e foi o primeiro antibiótico usado com sucesso, sendo utilizado até hoje.

Se você pensa que a contribuição dos fungos para a indústria farmacêutica acaba aí, se engana. Medicamentos usados para controle dos níveis de colesterol têm tudo a ver com fungos, já eles são os produtores das chamadas estatinas, moléculas redutoras de colesterol. Os transplantes também só são possíveis devido à ciclosporina, uma substância fúngica que tem função imunossupressora, ou seja, inibe a rejeição dos órgãos transplantados.

Nas últimas décadas, os avanços da biotecnologia levaram ao uso de certos fungos para produzir substâncias como a insulina, necessária ao tratamento de pessoas com certos tipos de diabetes. E não para por aí. Por sua grande diversidade, os fungos são considerados uma fonte única, rica e promissora para a descoberta de novos medicamentos para o tratamento das mais diferentes doenças.

 

Fontes consultadas
Chambergo F.S., Valencia E.Y. Fungal biodiversity to biotechnology. Appl Microbiol Biotechnol. 2016. 100, p. 2567–2577. Acesso em: https://doi.org/10.1007/s00253-016-7305-2

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Hyde, K.D. The numbers of fungi. Fungal Diversity 114, 1 (2022). Acesso em: https://doi.org/10.1007/s13225-022-00507-y

Data Publicação: 08/11/2022