Fig 1. Pulgões sugando seiva de uma planta. Crédito: Domínio público/PxHere

 

Conheça inseticidas botânicos que podem ajudar a controlar insetos das suas plantas ou horta

Ter verduras fresquinhas e temperos sempre à mão são alguns benefícios de ter uma horta em casa. Mas, além dos seres humanos, outros animais também gostam de comer as plantas que cultivamos. A presença de insetos na horta pode ser um problema. Você sabia que compostos naturais, os chamados inseticidas botânicos, podem nos ajudar a conviver com eles?

O problema dos inseticidas sintéticos

Plantios comerciais muitas vezes usam inseticidas sintéticos, que são produtos desenvolvidos em laboratório para matar insetos que se alimentam das lavouras.

Nos últimos oitenta anos, muitos tipos diferentes de inseticidas sintéticos foram inventados. Embora sejam eficientes a curto prazo, o uso desses produtos traz vários problemas. Alguns são extremamente tóxicos para as pessoas e outros seres vivos e permanecem longo tempo no ambiente. É o caso do DDT (sigla para Diclorodifeniltricloroetano), atualmente proibido na maioria dos países do mundo, incluindo o Brasil.

 

Fig 2. Entre as décadas de 1940 e 1960, frequentemente o DDT era pulverizado nas plantações de vários países. Crédito: Domínio público/Picryl

 

Além disso, os inseticidas sintéticos em geral matam muitos seres inofensivos, inclusive joaninhas, vespas e outros inimigos naturais dos insetos que desejamos combater. Para piorar, existem diversos casos de insetos que se tornaram resistentes a esses produtos.

O Brasil é um dos principais consumidores de inseticidas sintéticos e de outros agrotóxicos em todo o mundo. Vários produtos utilizados aqui são proibidos em outros países.

Como era antes da invenção dos agrotóxicos?

Plantas e insetos vivem juntos há 300 milhões de anos. Ao longo do tempo, esses seres estabeleceram relações ecológicas uns com os outros. As plantas são fonte de alimento para inúmeros insetos. Por outro lado, insetos como abelhas, besouros, moscas e borboletas são necessários para a polinização e reprodução de grande parte das plantas. Plantas e insetos convivem em equilíbrio nas matas e em outros ambientes naturais.

A situação muda em plantações, áreas em que há muitas plantas da mesma espécie juntas. Essa situação cria um verdadeiro banquete para lagartas, gafanhotos e outros insetos herbívoros.

Há cerca de dois mil anos, os agricultores da China, Grécia, Egito e Índia já sabiam usar os chamados inseticidas botânicos, substâncias naturalmente produzidas pelas plantas. Alguns desses inseticidas afugentam ou causam a morte dos insetos que comem as folhas. Outros atuam impedindo que o inseto se alimente ou se reproduza. De modo geral, eles mantêm o número de insetos sob controle, impedindo que causem muitos prejuízos para as plantas e os agricultores.

Fig 3. Nim indiano (Azadirachta indica). O óleo extraído desta planta impede que lagartas e outros insetos se alimentem das lavouras. Crédito: Forest & Kim Starr/Wikimedia Commons

Os cientistas vêm pesquisando sobre os inseticidas botânicos há várias décadas. Um dos mais conhecidos é a nicotina, encontrada na folha do tabaco (Nicotianiana tabacum). Ela é usada desde o século 17, para combater os besouros que se alimentavam das ameixeiras. Nos insetos, ela inibe o apetite, causa paralisia e até a morte. A nicotina é encontrada na planta do tabaco e é toxica para seres humanos.

Já o piretro, substância extraída da planta Tanacetum cinerariifolium, da família dos cristântemos, é menos tóxico para todos os mamíferos. O timbó (Derris elliptica) produz a rotenona, um potente inseticida natural. Há séculos, indígenas brasileiros usam um extrato feito com a raiz desta planta para atordoar peixes. Porém, seu uso requer cuidado extremo, pois pode paralisar a respiração e causar a morte se for ingerido por pessoas.

Inseticidas botânicos: vantagens e desvantagens

Os inseticidas botânicos são usados há bastante tempo e há cada vez mais pesquisas sobre eles. Uma grande vantagem é que esses inseticidas são biodegradáveis, isto é, são decompostos por bactérias e fungos. Dessa forma, eles não permanecem longo tempo no ambiente. Por isso, sua ação é curta e precisam ser aplicados várias vezes.

A maioria dos inseticidas botânicos contêm várias substâncias ativas e, portanto, é mais difícil que um inseto se torne resistente a todas elas. Muitos deles também atuam sobre outros seres vivos, como ácaros e nematoides. Porém, quase sempre são menos eficientes do que os produtos sintéticos. Seu objetivo não é eliminar completamente os insetos indesejados, mas evitar que causem muitos danos às plantações.

Conheça algumas receitas

E aí? Ficou com vontade de usar inseticidas botânicos nas plantas da sua casa ou da sua horta? Atualmente, eles são vendidos como produtos industrializados e também podem ser preparados em casa.

As receitas a seguir foram retiradas do texto “Uso de Inseticidas Alternativos no Controle de Pragas Agrícolas”, que você encontra ao fim desta página.

 

Atenção! Os inseticidas botânicos também podem ser tóxicos para seres humanos e animais domésticos. Siga as recomendações a seguir para usá-los em segurança.

1. Evite o contato com a pele.

2. Não beba o inseticida, nem o coloque na boca. Também evite inalar o produto.

3. Os recipientes usados para preparar os inseticidas botânicos não devem ser usados para outros usos.

4. Lave as mãos depois de preparar e usar o produto. Lave também qualquer parte do corpo que entre em contato com o inseticida botânico.

5. Após aplicar o inseticida, espere pelo menos cinco dias antes de colher e consumir os vegetais da sua horta.

 

Receita com alho (Allium sativum)

Esta mistura inibe a digestão de diversos insetos.

Ingredientes

100 g de dentes de alho

500 mL de água

10 g de sabão de coco

2 colheres de café de óleo mineral

Como fazer:

Triture os dentes de alho e misture com o óleo mineral. Deixe em repouso por 24h. Em outro recipiente, dissolva o sabão na água. Misture todos os ingredientes e filtre usando um pano limpo.

Para aplicar, coloque 50 mL da mistura em 1 L de água e borrife sobre as plantas.

 

Receita com fumo de corda

Esta mistura atua sobre pulgões, lagarta-da-couve e outras espécies. A nicotina é tóxica para seres humanos e animais domésticos.

Ingredientes

100 g de fumo de corda

4 L de água

2 colheres de sopa de sabão de coco moído ou em pó

Como fazer:

Corte o fumo em pequenos pedaços. Misture com 2 L de água e leve para ferver por 5 minutos. Use um pano ou peneira para filtrar a mistura. Acrescente o sabão em pó e o restante da água. Borrife sobre as plantas.

 

Receita com nim (Azadirachta indica)

O nim é eficiente contra gafanhotos, diversos tipos de lagartas e moscas, percevejos, besouros e outros animais. Tóxico para peixes.

Ingredientes

1 kg de frutos ou folhas verdes de nim

7,5 L de água

Como fazer:

Triture as folhas ou frutos no liquidificador com um pouco de água. Deixe a mistura em repouso por uma noite. Filtre usando um pano limpo e misture com o restante da água. Borrife sore as plantas. Essa mistura pode ser armazenada em local escuro por apenas três dias.

 

Fontes consultadas:

BARBOSA, F. R.; SILVA, C. S. B. da; CARVALHO, G. K. L. Uso de inseticidas alternativos no controle de pragas agrícolas. Petrolina: Embrapa SemiÁrido, 2006. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/133909.

CAMPOS, R. D. Inseticidas naturais avançam na agricultura e rivalizam com os agrotóxicos. Revista Pesquisa FAPESP, São Paulo, ano 30, n. 354, p. 32-39, dez. 2022. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/inseticidas-naturais-avancam-na-agricultura-e-rivalizam-com-os-agrotoxicos.

FIOCRUZ. Brasil é um dos principais receptores de agrotóxicos proibidos na União Europeia. Centro de Estudos da Saúde, 2022. Disponível em: https://cee.fiocruz.br/brasil-e-um-dos-principais-receptores-de-agrotoxicos-proibidos-na-uniao-europeia/.

GARCIA, J.L.M. O nim indiano: o bioprotetor natural. Fundação Joaquim Nabuco, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/fundaj/pt-br/destaques/observa-fundaj-itens/observa-fundaj/plantas-xerofilas/o-nim-indiano-o-bioprotetor-natural

MARTINS, R. Mistura de agrotóxicos encurta vida e altera comportamento de abelhas. Jornal da USP, 2022. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/mistura-de-agrotoxicos-encurta-vida-e-altera-comportamento-de-abelhas/

MICHEREF. M.F. Controle alternativo de Pragas e Fitopatógenos. Receitas para o controle de pragas. Embrapa Hortaliças. Disponível em: https://www.embrapa.br/documents/1354377/1893798/Controle-Alternativo-Pragas-Fitopatogenos-Migue-Michereff.pdf/e4a331fa-6313-49f6-90a8-cb1cc3dff43b?version=1.0

SOUZA, R. M. de; MELO, A. C. de. Inseticidas botânicos: aplicações, potencialidades e perspectivas. Piracicaba: Fealq, 2023.

 

Todos os textos foram acessados em 23 de dezembro de 2025.

 

Por Tereza Costa

 

 

 

Data Publicação: 14/01/2026