
Fig 1. Gravura do século 16 que mostra os relatos sobre o fenômeno da chuva de peixes. Crédito: Wikimedia Commons
Descubra também quem são os “peixes das nuvens”!
Quem nunca ouviu uma boa “história de pescador”? Centenas de anos atrás, já se falava sobre peixes que caíam com a chuva. Na era da internet, já foram vistos vídeos que mostram peixes espalhados pelo chão logo após uma tempestade. Além de viralizar nas redes sociais, estes fenômenos também despertam a desconfiança do público. Afinal, peixes podem mesmo cair do céu? Em alguns casos, a resposta passa longe da fantasia.
Primeiramente, fenômenos conhecidos como “chuva de peixes” já foram registrados várias vezes em diferentes partes do mundo. O caso mais famoso acontece na cidade de Yoro, em Honduras, onde moradores relatam o aparecimento de peixes após fortes chuvas todos os anos. No entanto, esse tipo de ocorrência não é exclusivo da América Central, e já foi registrado também no Brasil.
Em fevereiro de 2007, moradores da zona rural de Paracatu, em Minas Gerais, relataram um episódio semelhante durante um temporal. Segundo testemunhas, pequenos peixes caíram sobre casas e plantações, causando espanto na população.
A explicação mais aceita para o caso envolve fenômenos atmosféricos intensos. Meteorologistas apontaram que um minitornado pode ter sugado água e peixes de uma lagoa próxima, transportando-os pelo ar antes de soltá-los com a chuva.

Fig 2. Imagem de tornado sobre a água. Crédito: Getty Images
Quem são os “peixes das nuvens”?
Existem outras situações em que os peixes parecem surgir do nada. É o caso dos chamados “peixes das nuvens”, encontrados em brejos temporários. Esses animais, que no Brasil pertencem ao grupo dos rivulídeos, vivem em lagoas e brejos temporários que se formam durante a estação chuvosa. Ali eles depositam seus ovos no solo úmido.
Durante a seca, os ovos entram em um estado de dormência chamado diapausa. Quando a chuva retorna, a água volta a ficar empoçada e eles eclodem rapidamente, criando a impressão de que os peixes “apareceram” após a tempestade. Depois de um mês, os animais já estão adultos e voltam a se reproduzir. Esses peixes vivem menos de um ano e, por isso, também são chamados de peixes anuais.
Do fenômeno natural à história em quadrinhos
Esse ciclo de vida incomum inspirou a criação da história em quadrinhos (HQ) “Úrsula: uma peixinha do Sertão Carioca”, das pesquisadoras Luz Stella Rodríguez e Rachel Paterman. A obra apresenta, de forma acessível, a vida desses peixes e a importância dos brejos na biodiversidade urbana.

Fig3. Capa do livro “Úrsula: Uma peixinha no Sertão Carioca”. Crédito: reprodução
Em entrevista ao Invivo, Rodríguez e Paterman contam que a ideia surgiu a partir de pesquisas sobre paisagem e território na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Em 2022, foi criada a Área de Preservação Ambiental (APA) do Sertão Carioca, uma Unidade de Conservação com o objetivo de proteger animais silvestres, como o peixe das nuvens.
Ao perguntar sobre este peixinho, Luz Stella percebeu que ele era desconhecido pelas pessoas da região. A partir daí, as pesquisadoras decidiram transformar o fenômeno em narrativa, utilizando os quadrinhos como ferramenta de divulgação científica. A obra, voltada para o público infantojuvenil, está disponível gratuitamente aqui.
Ciência, cidade e invisibilidade ambiental
Além de explicar o fenômeno, a HQ chama atenção para a importância dos brejos, que são ambientes frequentemente ignorados pela cidade, mas essenciais para a biodiversidade e para a redução de desastres climáticos. Eles funcionam como “esponjas” que ajudam a evitar alagamentos em épocas de chuva e mantêm a umidade do solo durante a seca.
Essas áreas sofrem pressão constante da urbanização, o que ameaça diretamente espécies adaptadas a esses ecossistemas. Ao contar a história de um pequeno peixe, o livro convida o público a olhar para esses espaços de forma mais atenta.
Entre o viral e o científico
Seja por trombas d’água ou por estratégias evolutivas, os “peixes que caem do céu” mostram como a natureza pode parecer improvável, mas não inexplicável.
Em tempos de vídeos virais e desinformação, compreender os diferentes fenômenos por trás dessas imagens é essencial. Afinal, o que parece mentira pode ser, na verdade, um convite para conhecer melhor a ciência.
Saiba mais:
Fontes consultadas:
Paterman, Rachel; Rodríguez Cáceres, Luz Stella. Úrsula: uma peixinha do Sertão Carioca. Rio de Janeiro: Academicomics, 2024
G1. Moradores vêem “chuva de peixes” em Minas. Disponível em: https://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL7990-5598,00.html. Publicado em: 28 fev 2007. Acesso em: 18 mar. 2026.
History Channel. Quando Peixes Caem Do Céu I Inexplicável Com William Shatner. Facebook, [s.d.]. Disponível em: https://www.facebook.com/watch/?v=1486803209447972. Publicado em: 26 jan 2026. Acesso em: 19 mar. 2026.
CNN Brasil. “Chuva de peixes”: entenda o estranho fenômeno que acontece em Honduras. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/chuva-de-peixes-entenda-o-estranho-fenomeno-que-acontece-em-honduras/. Publicado em: 25 abr 2024. Acesso em: 19 mar. 2026.
BRASIL. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. Rivulídeos, os peixes que chegam com as chuvas. Disponível em: <https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/noticias/ultimas-noticias/conheca-os-peixes-rivulideos>. Publicado em: 28 fev 2020. Acesso em: 23 mar. 2026.
Por Rodrigo Narciso
Data Publicação: 01/04/2026