Fig 1. Pessoas que viveram catástrofes ambientais têm risco aumentado de ter a saúde mental impactada. Crédito: SAKDAWUT14/Getty Images

 

Conheça a ecoansiedade e descubra como o medo de eventos ambientais extremos pode impactar a nossa saúde mental

 

É verão, tempo de sol, praia… E, de repente, um trovão! Para algumas pessoas, principalmente, aquelas que já sofreram com enchentes ou outras situações traumáticas relacionadas à chuva, o som gerado por um raio pode desencadear uma série de sensações ruins. Falta de ar, suor excessivo, mal-estar e outros sintomas que caracterizam uma crise de ansiedade. A ansiedade relacionada a questões ambientais, como a crise climática, é um problema de saúde mental que já vem sendo reconhecido e estudado por especialistas. A Associação Americana de Psicologia define a ecoansiedade, também conhecida como ansiedade climática, como “medo crônico da catástrofe ambiental”.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos de ansiedade são os transtornos mentais mais comuns em todo o mundo. Em 2021, por exemplo, o problema afetou 359 milhões de pessoas. No Brasil, a questão também acende um alerta. De acordo com o Ministério da Previdência Social, em 2024, quase meio milhão de trabalhadores precisaram se afastar de seus empregos devido a questões relacionadas à saúde mental. O número representa um aumento de quase 67% em relação ao ano de 2023. Dos 440 mil afastamentos registrados, mais de 141 mil foram causados por transtornos de ansiedade. Vamos saber mais sobre esse problema?

 

O que é a ansiedade?

 

Fig 2. Falta de ar, suor excessivo, tremores e mal-estar são alguns sinais da crise de ansiedade. Crédito: Jacob Wackerhausen/Getty Images

 

Segundo Jaqueline Tavares de Assis, psicóloga, doutora em Psicologia Clínica e Cultura e pesquisadora no Núcleo de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (Nusmad) da Fiocruz Brasília, a ansiedade é um conjunto de sintomas que revelam uma dificuldade de regulação emocional diante de uma determinada situação.

— O processo fisiológico da ansiedade sempre começa com falta de ar. Por não regular a emoção do medo, começamos a respirar de forma mais rápida, não conseguindo fazer o processo de expiração e inspiração adequado, o que leva a uma hiperoxigenação do cérebro. Isso vai disparando uma série de outros sintomas como o excesso de calor, às vezes, tremores, arritmia cardíaca, até situações de pânico, explica.

Segundo a especialista, na chamada ecoansiedade, esses sinais aparecem associados a questões ambientais, mas não somente a questões climáticas. Estudos internacionais apontam que, entre 25% a 50% das pessoas expostas a desastres climáticos, têm risco de desenvolver problemas de saúde mental.

A relação entre ambiente e saúde mental também foi evidenciada na edição de 2025 do Panorama da Saúde Mental, um estudo conduzido pelo Instituto Cactus, em parceria com a AtlasIntel. A pesquisa, que avaliou mais de 10 mil voluntários de todas as regiões do Brasil, mostrou que 74,3% dos participantes já tinham vivenciado as consequências diretas de algum evento climático extremo como enchentes, queimadas e ondas de calor. Além disso, quase 42% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas têm ou já tiveram impacto em sua saúde mental.

 

Como a chuva, a seca e outros eventos extremos da natureza podem impactar a nossa saúde mental?

 

Fig 3. Incêndios florestais tornam-se mais frequentes nas estações mais secas do ano. Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

 

Se por um lado, o verão pode trazer o medo das enchentes, de desalojamentos, deslizamentos e perdas para algumas pessoas, para outras, os períodos mais secos são os mais desafiadores.

Entre os meses de agosto a outubro, quando as temperaturas são um pouco mais baixas e o clima fica mais seco, o número de focos de incêndio florestais aumenta. Assim, anualmente, pessoas que moram em áreas frequentemente atingidas por queimadas tendem a ficar com mais medo na época da seca. Esse medo também pode provocar os sinais de ansiedade.

Além das queimadas, a seca pode comprometer a alimentação de populações. Historicamente, os moradores da região semiárida brasileira convivem com essa questão. “Nos meses em que a chuva não vem com a abundância necessária, existe todo um processo de problemas sociais e fisiológicos, e a questão da saúde mental, literalmente, acompanha esses problemas de forma adoecedora”, ressalta a psicóloga.

Segundo Assis, a expectativa por um sinal de chuva impacta o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das pessoas. Ou seja, se não houvesse essa preocupação, o desenvolvimento desses três campos seria diferente.

A especialista lembra ainda que a saúde é integral, ou seja, na prática, não tem divisão entre saúde física e a saúde mental. Isso significa que a saúde mental afeta processos fisiológicos e vice-versa. “A simples exposição do nosso corpo ao calor de 45 ºC, 46 ºC é o suficiente para provocar alterações de humor importantes que podem atrapalhar e desorganizar o nosso cotidiano”, ressalta.

 

Ecoansiedade no contexto do racismo ambiental

 

Fig 4. Populações periféricas são as que mais sofrem com os efeitos dos eventos climáticos extremos. Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 

Embora a ecoansiedade possa afetar qualquer pessoa, alguns grupos estão em maior risco. Segundo a pesquisadora da Fiocruz Brasília, pessoas que vivem em regiões mais afetadas por questões climáticas têm um risco aumentado de ter a saúde mental comprometida por eventos extremos da natureza.

“Geralmente, quem mais sofre na perspectiva da crise climática, das questões ambientais dentro das grandes cidades são as populações periféricas. E se a gente olhar para as populações periféricas, são em sua maioria pessoas negras”, destaca Assis.

Essa situação desigual configura o que chamamos de racismo ambiental. Outros grupos que são afetados pelo racismo ambiental, ou seja, que também tendem a sofrer mais com problemas ambientais são os indígenas e a população ribeirinha.

 

Como lidar com algo que não podemos controlar?

 

Fig 5. Participar de ações de reflorestamento e agroflorestais podem ajudar a nos sentirmos menos impotentes frente à crise climática. Crédito: Igor Alecsander/Getty Images

 

Um dos grandes desafios no enfrentamento da ecoansiedade é o fato do quadro estar relacionado a uma expectativa por algo sobre o qual não temos controle. Afinal, não temos como controlar o clima e eventos ambientais.

Segundo Assis, é preciso trabalhar de forma muito consciente e consistente para ter resiliência emocional e protagonismo social. “Precisamos trabalhar num espaço que é social, não só individual. Trabalhar possibilidades de ação, possibilidades para que a pessoa possa se sentir diferente, para que não se sinta tão impotente diante da situação”, destaca.

O caminho, de acordo com a psicóloga, é trabalhar a prevenção, pensando em organizações comunitárias e sociais que possam nos ajudar a nos deslocar do lugar de impotência para o lugar de sujeitos capazes de mudar a nossa situação, ainda que em longo prazo.

— À medida que vamos trabalhando no plano psicoeducativo, entendendo que podemos atuar culturalmente para reverter o processo, contribuindo para que as futuras gerações não venham a sofrer com esse problema que sofremos hoje, eu me desloco do lugar de impotência para o lugar de sujeito transformador, afirma.

É possível, por exemplo, trabalhar atividades de reflorestamento, de agrofloresta, ações que mostram que podemos viver em interdependência com o ambiente. “À medida que eu cuido dele, ele também cuida de mim”, ressalta a pesquisadora.

Atualmente, existem ainda serviços de saúde, inclusive gratuitos, ofertados pelo Sistema Único de Saúde, voltados para o tratamento de transtornos mentais. Neles, as pessoas são acolhidas e ouvidas. Durante o tratamento do transtorno de ansiedade, é trabalhada a resiliência emocional. “A ideia é ajudar a criar um contexto de autorregulação emocional. No momento da crise de ansiedade, a emoção do medo está transbordando. Então, preciso trabalhar confiança, segurança e resolutividade para que a pessoa tenha bases sustentáveis para a emoção do medo não a dominar”, destaca.

 

Saiba mais em:

Racismo ambiental: o que é isso?

Tipos de transtornos psiquiátricos

Cinco lugares que já são afetados pela crise climática no Brasil

Mudanças climáticas do passado: o clima sempre foi assim?

Como as mudanças climáticas afetam as favelas?

 

Fontes consultadas

1. Maraccini, Gabriela. Ecoansiedade: entenda como as mudanças climáticas impactam a saúde mental. CNN Brasil. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/ecoansiedade-entenda-como-as-mudancas-climaticas-impactam-a-saude-mental/. Publicado em: 13 maio 2024. Atualizado em: 12 set 2024.

2. Organização Mundial da Saúde (OMS). Anxiety disorders. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/anxiety-disorders. Publicado em: 08 set 2025.

3. Laboissière, Paula. Saúde mental: afastamentos dobram em dez anos e chegam a 440 mil. Agência Brasil. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-03/afastamentos-por-transtornos-mentais-dobram-em-dez-anos-chegam-440-mil. Publicado em: 11 mar 2025.

4. Crane K, Li L, Subramanian P, Rovit E, Liu J. Climate Change and Mental Health: A Review of Empirical Evidence, Mechanisms and Implications. Atmosphere. 2022; 13(12):2096. https://doi.org/10.3390/atmos13122096

5. Panorama da Saúde Mental. Disponível em: https://panoramasaudemental.org/#sumario

*Todos os sites foram acessados em 19 jan de 2026.

 

Por Teresa Santos

Data Publicação: 28/01/2026