Fig 1. O excesso de notificações do celular causa uma espécie de ‘confusão mental’. Crédito: Getty Images

Por que alertas do celular não apenas interrompem, mas mudam a forma como pensamos e mantemos a atenção?

As notificações do celular são feitas para dar lembretes aos usuários de smartphones sobre eventuais novidades que podem estar ocorrendo, seja nas redes sociais, promoções de aplicativos, conversas, entre outros. Entretanto, uma série de pesquisas em neurociência e psicologia tem mostrado que essas notificações não são apenas pequenas interrupções no cotidiano. Elas produzem efeitos no cérebro, alterando a forma como prestamos atenção, processamos informações e mantemos o foco.

Quer saber mais sobre esse processo? Então, confira o texto abaixo do Invivo e veja como esses pequenos lembretes diários podem causar problemas psicológicos a longo prazo. Continue a leitura!

Não é só distração

Estudos experimentais mostram que, ao ouvir ou sentir uma notificação, nosso cérebro automaticamente redireciona parte da atenção, mesmo quando não interagimos com o aparelho. Em tarefas que exigem concentração, pessoas expostas a sons de notificações apresentam respostas mais lentas e pior desempenho geral.

Acima de tudo, isso acontece porque a atenção humana não é totalmente voluntária. Certos estímulos capturam o nosso foco de maneira automática. É um mecanismo adaptativo: ao longo da evolução, responder rapidamente a sinais do ambiente podia ser uma questão de sobrevivência.
O problema é que, no ambiente digital, esses sinais são constantes.

O foco ficou mais caro

Fig 2. Os ‘bips’ das notificações do celular desviam parte da nossa atenção mesmo quando estamos focados em uma tarefa. Crédito: Getty Images

 

Se ignorar a notificação não resolve, o que acontece então? O cérebro compensa. Pesquisas que medem a atividade cerebral mostram que, diante de notificações, há um aumento no esforço cognitivo necessário para manter a atenção em uma tarefa. Ou seja, você continua trabalhando, mas precisa gastar mais energia mental para isso.

Esse esforço adicional custa. Ele se traduz em maior fadiga, aumento de erros e dificuldade em sustentar a atenção por longos períodos. Manter o foco, que antes podia ser fácil, passa a ser uma atitude de resistência contínua a esses estímulos externos.

Quando a interrupção vira hábito

Há um outro nível de impacto, menos visível, porém ainda mais profundo. As notificações não apenas interrompem, elas ensinam o cérebro a esperar interrupções.

Isso está relacionado ao funcionamento do sistema de recompensa, mediado pela dopamina, uma substância produzida pelo cérebro e associada à sensação de bem-estar. Cada nova mensagem, reação ou alerta funciona como uma recompensa potencial, muitas vezes imprevisível. Esse padrão é o mesmo mecanismo explorado em jogos de azar.

Com o tempo, o cérebro passa a antecipar essas recompensas. Surge o impulso de checar o celular, mesmo sem notificação. A atenção deixa de ser apenas desviada: ela passa a ser condicionada.

Esse ciclo pode levar a um estado de vigilância constante, no qual a mente fica parcialmente orientada para possíveis estímulos externos, mesmo durante atividades que exigem concentração profunda.

Fig 3. As ilustrações de bolha de fala presentes na imagem e associadas ao telefone trazem uma reflexão sobre o excesso de notificações que recebemos diariamente. Crédito: Getty Images

Entre o controle e a adaptação

Nada disso significa que as notificações devem ser eliminadas por completo. Elas cumprem funções importantes, entre ela, conectar pessoas, organizar rotinas, facilitar o acesso à informação. No entanto, compreender seus efeitos é essencial.

Se, por um lado, as tecnologias foram desenhadas para capturar nossa atenção, por outro, nosso cérebro não evoluiu para lidar com um fluxo contínuo de estímulos concorrentes. O resultado disso tudo é um sistema cognitivo limitado e exposto a demandas praticamente infinitas.

Talvez o maior impacto das notificações não seja nos interromper em momentos pontuais, mas transformar a própria experiência de atenção.
Pouco a pouco, o silêncio necessário para sustentar um pensamento contínuo se torna mais raro e mais difícil de manter.

 

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Fontes consultadas:

UPSHAW, J. D. et al. The hidden cost of a smartphone: The effects of smartphone notifications on cognitive control from a behavioral and electrophysiological perspective. PLOS ONE, 2022. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0277220. Acesso em: 10 abr 2026

KIM, S.-K.; KIM, S.-Y.; KANG, H.-B. An Analysis of the Effects of Smartphone Push Notifications on Task Performance with regard to Smartphone Overuse Using ERP. Computational Intelligence and Neuroscience, 2016. http://dx.doi.org/10.1155/2016/5718580. Acesso em: 10 abr 2026

SHARMA, V. Neural Mechanisms of Smartphone Use, ADHD, and Dopamine Dysregulation: Implications for Cognitive Function and Attention. Brain Matters, 2025. https://ojs.library.illinois.edu/index.php/brainmatters/article/view/1070. Acesso: 10 abr 2026

HONMA, M. et al. Reading on a smartphone affects sigh generation, brain activity, and comprehension. Scientific Reports, 2022. https://doi.org/10.1038/s41598-022-05605-0. Acesso em: 10 abr 2026

 

Por Rodrigo Narciso

Data Publicação: 29/04/2026