Fig 1. Em 1998, biólogos dos Estados Unidos deram o nome de “cegueira botânica” para a inabilidade de perceber e valorizar as plantas. Crédito: rparobe/Getty Images

 

Saiba mais sobre a impercepção botânica e como podemos contorná-la

Pense em um ser vivo! Em que você pensou? Muitas pessoas pensam em cachorros, gato ou outros animais. Mas será que estamos nos esquecendo de outros seres?

Você é uma daquelas pessoas que ama ver as fotos que os amigos postam nas redes sociais? Que comentário você escreveria sobre as fotos a seguir?

Fig 2. O que você vê nestas fotos? Créditos de cima para baixo: Docinets Vasill/Getty Images, Chalabala/Getty Images e igoriss/Getty Images/modificado por Invivo)

 

Se você notou apenas o carro, os bichinhos de estimação e o casal de noivos você pode estar sofrendo de um fenômeno muito comum que acontece com pessoas de todo o planeta: a dificuldade de perceber a presença das plantas no nosso dia a dia.

Elas estão em todos os lugares, mas nem sempre reparamos nelas.

Você viu alguma planta hoje? E na última semana? Onde ela estava?

As plantas estão em quase todo os ambientes da Terra, com exceção do mar. Mesmo nas cidades, elas são encontradas nas ruas, nos quintais e dentro das casas.

Fig 3. As plantas estão onde menos esperamos. Você reparou no musgo que cresce nesta calçada? Crédito: PXhere

Se fosse possível colocar todos os seres vivos do mundo em uma balança, eles pesariam muitos bilhões de toneladas. Cerca de 80% dessa massa está nas plantas. Em segundo lugar viriam as bactérias. Todos os animais juntos, inclusive os seres humanos, não chegariam a 0,5%.

Mesmo assim, muitas vezes somos incapazes de perceber a presença e a importância das plantas para a vida das pessoas e dos demais seres vivos. Em 1998, os biólogos dos Estados Unidos James Wandersee e Elisabeth Schussle deram o nome de “cegueira botânica” para essa inabilidade de perceber e valorizar as plantas. Infelizmente, essa falta de percepção tem consequências sérias para a conservação da biodiversidade.

Por que temos dificuldade em perceber as plantas?

Há muitas respostas para esta pergunta. Os pesquisadores que batizaram o conceito dizem que a nossa cultura considera que as plantas são inferiores aos animais e, portanto, menos dignas de atenção.

Essa comparação injusta e equivocada pode ter origem na forma como enxergamos o mundo. Nosso cérebro dá muita atenção para coisas que se movem e talvez isso explique por que temos mais facilidade em reparar nos animais. Durante milhões de anos de evolução, nossa visão se especializou em detectar predadores e presas. É possível que, à primeira vista, enxerguemos as plantas como um elemento imóvel da paisagem, um tipo de cenário onde a vida animal acontece.

Porém, nossa desatenção também é aprendida desde cedo. De modo geral, as pessoas conhecem mais nomes de animais do que nomes de plantas. E, na escola, é comum que o ensino de botânica receba menos atenção do que o estudo dos animais.

Por que precisamos reparar nas plantas?

Nossa falta de percepção sobre as plantas causa grandes obstáculos para o enfrentamento dos desafios ambientais da atualidade.
Dependemos das plantas para obter alimentos, madeira, fibras têxteis e muitos outros produtos. Porém, nem sempre percebemos que a importância delas vai mais além.

Por meio da fotossíntese, as plantas (assim como as algas e algumas bactérias) retiram gás carbônico do ar e o transformam em glicose. Por isso, o plantio de árvores é uma forma de combater o excesso de gás carbônico no ar. As plantas também contribuem para a manutenção do clima, do regime de chuvas e previnem a erosão e o assoreamento de rios.

O problema é que, assim como não notamos as plantas, também não vemos os serviços essenciais que elas prestam para o ambiente. Como resultado, nem todas as pessoas percebem que é vital preservar florestas e áreas verdes. Infelizmente, o desmatamento continua acontecendo em diversas regiões do país.

Além disso, nossa indiferença por estes seres também se reflete no menor financiamento para pesquisas e iniciativas de conservação de espécies. Pense bem: você consegue dizer o nome de três animais ameaçados e extinção no Brasil? E de três plantas?

Fig 4 Segundo uma lista que o Ministério do Meio Ambiente divulgou em 2022, existem mais de 3 mil espécies de plantas ameaçadas de extinção no Brasil. O Coroa-de-frade (Melocactus sp.) é um cacto em risco. Crédito: Diogo Sérgio/Wikimedia Commons

Como podemos prestar mais atenção às plantas?

Uma das estratégias para melhorar nossa percepção das plantas é conhecer mais sobre elas. Muitos livros, sites e aplicativos trazem informações valiosas e interessantes sobre a vida desses seres. Nas escolas, é possível oferecer materiais e atividades motivadoras para estudantes, professores e interessados no assunto. Museus podem oferecer exposições e oficinas sobre fotografias e ilustrações botânicas.

A valorização das plantas também está ligada à nossa conexão com elas no dia a dia. Cultivar uma horta, plantar uma árvore ou observar o crescimento de uma muda são atividades que promovem o cuidado por esses seres. Conhecer culturas tradicionais que respeitam e apreciam as plantas também é uma maneira de mudar nosso ponto de vista sobre o mundo vegetal.

Você também pode ajudar muito! Descubra mais sobre as plantas e converse sobre esse assunto com as pessoas que você conhece. Assim, mais pessoas vão enxergar o mundo com outro solhos, mas atentos para a biodiversidade que sustenta a vida no planeta.

Quer saber mais sobre esses seres silenciosos, mas vitais? Confira as matérias a seguir.

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Cinco razões que tornam as plantas fundamentais para a vida na Terra

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Plantas famintas

 

Fontes consultadas:

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Portaria MMA nº 148, de 7 de junho de 2022. Altera os Anexos da Portaria nº 443, de 17 de dezembro de 2014, da Portaria nº 444, de 17 de dezembro de 2014, e da Portaria nº 445, de 17 de dezembro de 2014, referentes à atualização da Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 8 jun. 2022. Disponível em: https://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-mma-n-148-de-7-de-junho-de-2022-406272733. Acesso em: 17 maio 2026.

MAPBIOMAS. Relatório Anual do Desmatamento no Brasil 2024. MapBiomas Alerta, maio 2025. Disponível em: https://alerta.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/17/2025/05/RAD2024_15.05.pdf. Acesso em: 14 maio 2026.

URSI, Suzane. Cegueira botânica, conservação ambiental e sustentabilidade. Nexo Jornal. Disponível em: https://pp.nexojornal.com.br/bibliografia-basica/2021/06/23/cegueira-botanica-conservacao-ambiental-e-sustentabilidade. Publicado em: 23 jun 2021. Atualizado em: 28 dez 2023. Acesso em: 14 maio 2026.

ZARRACINA, Javier; RESNIK, Brian All life on Earth, in one staggering chart. Vox, . Disponível em: https://www.vox.com/science-and-health/2018/5/29/17386112/all-life-on-earth-chart-weight-plants-animals-pnas. Atualizado em: 15 ago 2018. Acesso em: 14 maio 2026.

URSI, Suzana; SALATINO, Antonio. Nota Científica – É tempo de superar termos capacitistas no ensino de Biologia: impercepção botânica como alternativa para “cegueira botânica” . Boletim de Botânica, São Paulo, Brasil, v. 39, p. 1–4, 2022. DOI: 10.11606/issn.2316-9052.v39p1-4. Disponível em: https://revistas.usp.br/bolbot/article/view/206050. Acesso em: 14 maio 2026.

WANDERSEE, James H., and Elisabeth E. SCHUSSLER. “Preventing Plant Blindness.” The American Biology Teacher, vol. 61, no. 2, 1999, pp. 82–86. JSTOR, https://doi.org/10.2307/4450624. Acesso em: 14 maio 2026.

 

Por Tereza Costa

Data Publicação: 27/05/2026