Fig 1. Parque Olímpico dos Jogos Olímpicos de 2016 na Barra da Tijuca. Crédito: Miriam Jeske/Brasil2016.gov.br/Wikimedia Commons

Além de medalhas, megaeventos esportivos podem proporcionar prejuízos para o planeta

Na TV, o narrador anuncia: “Mais uma medalha brasileira!”. O momento é de alegria, mas um detalhe importante se esconde. Os megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, impactam muito as cidades que sediam essas grandes atrações. Elas trazem grande circulação de pessoas, mais emissão de gases poluentes e causadores do aquecimento do planeta, geração de resíduos e várias outras questões. Vamos conhecer mais a fundo esse legado que está longe de ser digno de comemoração.

A lista de possíveis problemas é grande. Além do aumento de poluentes e de resíduos, frequentemente são realizadas remoções de famílias de suas casas. Também são comuns soluções improvisadas na área de saneamento e promessas de infraestrutura que acabam sendo descumpridas. O desmatamento de áreas verdes é outro desfecho negativo.

 

População mais pobre é a mais afetada

Fig 2. Parte dos indígenas da Aldeia Maracanã (RJ), desde 2013, resiste à remoção. Há tempos o governo estadual deseja a desocupação da área. Em outubro de 2025, o terreno entrou na lista de imóveis que o governo pretende leiloar. Crédito: Hélio Euclides

Na Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, por exemplo, 800 árvores foram cortadas, em Belo Horizonte (MG), para a ampliação do estádio do Mineirão. Também na capital mineira, houve corte de mais de 70 árvores, entre espécies nativas e exóticas, para a realização da edição da Stock Car, corrida automobilística, em 2024.

Para a geógrafa Rejany Ferreira dos Santos, do Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha, é preciso perguntar para a população se os megaeventos esportivos são prioridade para evitar o repúdio da população, como ocorreu na Stock Car.

E ela questiona:

— Eu acho que é essencial uma participação social, pois a população mais pobre é a mais prejudicada. Qual foi o legado da Copa do Mundo de 2014 para a Favela do Metrô/Mangueira e das Olímpiadas de 2016 para a Vila Autódromo, na Barra da Tijuca (RJ), que sofreram com a remoção de moradores?

A Favela do Metrô, localizada perto do Maracanã, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, foi removida para a construção de um polo automotivo, algo que não ocorreu. A Copa do Mundo de 2014 também tinha o mesmo desfecho para a Aldeia Maracanã, contudo os indígenas resistiram para a permanência do espaço cultural urbano. Já a Vila Autódromo deu lugar a equipamentos olímpicos.

Uma Baía de Guanabara (RJ) no meio do caminho de grandes eventos

 

Fig 3. Resíduos retidos em ecobarreira da Baía de Guanabara (RJ). O material poderia ser encaminhado para reciclagem, mas acaba boiando na superfície da água. Crédito: Hélio Euclides

Especificamente no Rio de Janeiro, um dos legados prometidos há tempos é a despoluição da Baía de Guanabara. O tema virou novela, mas sem final feliz.

A promessa de despoluição já foi uma bandeira levantada nos Jogos Pan-Americanos e Parapan-Americanos de 2007 e nas Olimpíadas e nas Paralimpíadas em 2016. Na época, o local foi palco de competições de vela. Também ganhou destaque com a candidatura da capital carioca e de Niterói para sediar os Jogos Pan-Americanos de 2031, mas perdeu para Assunção, no Paraguai.

O desejo de revitalização, no entanto, é mais antigo. Em 1991, foi criado o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG). Em 1992, a ideia da despoluição ganhou mais força na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92) também realizada no Rio de Janeiro.

A meta seria tratar 80% do esgoto despejado na baía, algo que virou lenda, pois as Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs) operam abaixo da capacidade.

Um exemplo é a ETE Alegria, que, em 2022, segundo a empresa Águas do Rio, tratava apenas 1,7 mil litros de esgoto por segundo, tendo capacidade para até 5 mil. Além do esgoto, calcula-se que diariamente cerca de 3 milhões de litros de chorume sejam despejados diretamente em suas águas, segundo dados divulgados pela organização socioambiental Movimento Baía Viva.

Após o fracasso do PDBG, e de olho nas Olimpíadas, o governo do Estado criou em 2011 o Programa de Saneamento Ambiental (PSAM). Para Sérgio Ricardo, ecologista e gestor ambiental do Baía Viva, a despoluição é usada pela classe política para captar recursos. “É algo em torno de 200 bilhões, só nos períodos dos grandes eventos”, afirma Ricardo. E a baía continua sendo referenciada por meio da promessa de despoluição, como afirma a geógrafa Rejany: “Na candidatura do Pan para 2031, surgiram várias propostas e contrapartidas. É um local muito importante econômica e ambientalmente”.

De onde vem o lixo que vai parar na Baía?

Quando se pensa em poluição nas grandes cidades, as populações mais pobres são frequentemente culpabilizadas. “A favela é um território social e ambientalmente vulnerabilizado, onde a política pública não chega com a qualidade que deveria. A melhor solução é ter uma coleta seletiva como a que ocorre na Zona Sul”, complementa Ferreira. E acrescenta: “se não houver uma articulação com todos, vontade política e ação de fato, não acredito na despoluição”.

Fig 4. População sofre com ausência de saneamento básico e de coleta de resíduos, que acabam caindo nos valões e seguindo para a Baía de Guanabara. Crédito: Hélio Euclides

Algumas iniciativas em áreas nobres em outros países a partir de megaeventos esportivos sugerem que é possível melhorar a qualidade das águas. Foi o que aconteceu no Rio Sena, durante as Olimpíadas de Paris de 2024, e na baía de Homebush, durante as Olímpiadas de Sydney em 2000. Na França, por exemplo, a solução encontrada foi o tratamento dos esgotos e das águas pluviais que chegavam ao rio.

Recentemente, no Rio de Janeiro, foi divulgada a liberação para banho das praias do Flamengo e da Glória, no Rio de Janeiro, mas Ricardo explica que, além de intervenção, o motivo principal é que são praias oceânicas. Ou seja, recebem influência das marés e das ondas, tendo maior circulação da água. Os balneários que atendem regiões menos nobres da cidade, como nos bairros da Maré, Ilha do Governador e Ilha do Fundão, continuam poluídos.

Contudo, a baía ainda está viva. E Ricardo completa:

— Precisamos avançar nas políticas públicas de saneamento, coleta seletiva e controle industrial, evitando o vazamento de óleo e revitalizando os manguezais. Não vai ocorrer uma despoluição, mas, sim, uma recuperação ambiental, pois nunca será como antes. É possível resgatar a balneabilidade da pesca.

 

A Baía de Guanabara dos pescadores

Os pescadores precisam da baía limpa para exercer a sua profissão. José Oliveira, conhecido por Zezinho, de 65 anos, é pescador artesanal há 19 anos, filiado à Colônia Z11, na Praia de Ramos, na Maré. Ele lembra com carinho que, em 1972, tomava banho na Praia de Ramos:

— Hoje, isso é impossível. Se a poluição de lixo flutuante e esgoto continuar acelerada, daqui a 10 anos ficarão impróprias as praias de Niterói e, daqui a 40 anos, as praias de Copacabana, Leblon e Ipanema. Temos que começar um trabalho urgente. Daqui a 20 anos, vai ser bem difícil ter pescado na mesa do povo.

Fig 5. Apesar da dificuldade de conseguir peixes na Baía de Guanabara (RJ), pescadores não desistem da profissão e do amor pelo mar. Crédito: Hélio Euclides

Além da despoluição, ele acredita na oferta de cursos nas colônias para ensinar a pescar, fazer rede, trabalhar com mecânica e carpintaria. “O peixe dá um leque de opção de trabalho. Eu tenho quatro filhos e nenhum quis nada com esquema de pesca. Precisamos mostrar para a nova geração que a baía é nossa, sem ela a gente não vive”, acrescenta Zezinho. “Os grandes eventos contribuem naquele momento, mas é como enxugar gelo: você não está resolvendo o problema. A baía é vida, não pode ser um penico. Ela pede socorro”, completa o pescador.

Fontes consultadas:

Gomes, Victor Arouca. Maracanã sustentável: um estudo sobre a questão ambiental nos megaeventos esportivos. Espaço e Economia, 7 | 2015. DOI: https://doi.org/10.4000/espacoeconomia.1923. Acesso em: 29 out 2025.

Mayrink, Luciana da Silva; Schlesinger, Miguel Tiriba; Garcia, Jesús Jorge Pérez. Os megaeventos na cidade do Rio e Janeiro e a Educação Ambiental: reflexões a partir dos impactos e conflitos gerados pelas disputas territoriais. In: IX Encontro Pesquisa em Educação Ambiental, 2017, Juiz de Fora. IX Encontro Pesquisa em Educação Ambiental – Políticas públicas, democracia, práticas educativas. Juiz de Fora: UFJF, UFF e FFCLRP/USP, 2017. v. 1. p. 1-9. Disponível em: http://epea.tmp.br/epea2017_anais/pdfs/plenary/0153.pdf. Acesso em: 29 out 2025.

Malhado, Acácia Cristina Medes. Megaeventos e suas implicações. Percurso Acadêmico, Belo Horizonte, v. 4, n. 8,p. 8-9 jul./dez. 2014. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/percursoacademico/article/view/10467/8676. Acesso em: 29 out 2025.

Siqueira, Caio Henrique Quemel; Ribeiro, Alexandre Lima de Araújo. Estratégias Sustentáveis em Megaeventos Esportivos: Uma Análise das Copas do Mundo de Futebol. Revista Intercontinental de Gestão Desportiva. 2021, Vol. 11, e110012. Disponível em: http://www.rigd.periodikos.com.br/article/10.51995/2237-3373.v11i1e110012/pdf/rigd-11-2-e110012.pdf. Acesso em: 29 out 2025.

 

Por Hélio Euclides

Esse texto é fruto de uma chamada de artigos exclusiva para participantes da 3ª edição da “Oficina de Jornalismo de Ciência e Saúde para Comunicadores Populares”, realizada entre 21 e 23 de agosto de 2025 de forma virtual.

Data Publicação: 10/06/2026