
Fig 1. A raiva pode ser um sentimento protetor, mas também dá nome a uma doença muito grave. Crédito: Getty Images
Saiba mais sobre o sentimento raiva e sobre a doença de mesmo nome
Você já reparou que algumas palavras têm mais de um significado? Como manga de camisa e a fruta manga? A raiva é uma dessas palavras. Ela pode significar o sentimento de ira, que tem a função de proteger as pessoas de injustiças, situações desagradáveis e ameaças (embora, às vezes, a raiva possa ser negativa e precise ser controlada). Mas a palavra “raiva” também pode significar uma doença que quase sempre leva à morte. A raiva é causada por um vírus transmitido por animais mamíferos ao ser humano.
Sentimento protetor
O sentimento raiva geralmente está associado a algo indesejado, mas ela tem um lado protetor. Esse sentimento afasta a pessoa de uma situação desagradável ou uma ameaça que está provocando a raiva. Uma pessoa que sente raiva está preparada para “lutar” pelo que é importante para ela, sem necessariamente partir para agressões. Assim, ao longo da evolução da espécie, foi um sentimento importante para garantir a sobrevivência.
No entanto, sentir raiva frequentemente ou o tempo todo tem consequências negativas para o corpo. Ela aumenta o nível de cortisol – o hormônio do estresse –, o que pode provocar aumento na pressão arterial, enfraquecimento do sistema imunológico e até afetar a memória de curto prazo.
Por outro lado, não sentir raiva, nunca, pode fazer com que as pessoas deixem de se importar e proteger aquilo que consideram importante, sejam valores, pessoas ou até coisas. O que importa mesmo é saber controlar a raiva e reduzir o que consideramos como ameaça, pois é esse sentimento que pode detonar um episódio raivoso. A raiva descontrolada também prejudica o relacionamento com a família, amigos e colegas de trabalho ou da escola. Por isso, o melhor é procurar um psicólogo ou psicanalista para buscar ajuda e mudar a percepção das ameaças.
Doença letal
Já a doença, é provocada pelo RABV (Vírus da raiva), um vírus do gênero Lyssavirus, da família Rhabdoviridae. Ele tem RNA como material genético e seu formato lembra uma bala de revólver.

Fig 2. Vírus da raiva (em azul) se multiplicando dentro de uma célula (região em preto e amarelo). Imagem obtida por microscópio eletrônico. Crédito: NIAID/Wikimedia Commons
O vírus causa uma infecção no cérebro que é praticamente 100% fatal após o começo dos sintomas. Ele é transmitido pela saliva de animais mamíferos contaminados – por isso, a raiva é uma zoonose – por meio de mordida, arranhadura ou lambedura. Entre os animais mais comumente infectados, estão cães, gatos, morcegos, macacos e até bois.
O vírus da raiva não atravessa a pele íntegra, isto é, sem ferimentos. O vírus é transmitido quando um animal contaminado morde ou arranha a pele. A transmissão também pode acontecer se o animal lamber a pele já ferida ou uma mucosa, como a parte interna da boca e dos lábios.
A humanidade não está livre da raiva humana, mas o perfil de transmissão da doença no Brasil tem mudado. Não há registro de casos transmitidos por cães no país nos últimos 10 anos, pois a vacinação de cães e gatos tem garantido o controle da raiva em ambientes urbanos. Atualmente, o número de casos têm aumentado bastante por causa de contaminação por animais silvestres – principalmente saguis e morcegos. Em 2025, houve três casos de raiva humana no país, todos causados por primatas não-humanos.
Isso mostra que o perfil da raiva no país mudou nos últimos anos.

Fig 3. Vacinar cães e gatos contra a raiva é importante para evitar novos casos da doença. Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Wikimedia Commons
Casos de cura da raiva
Geralmente letal, a infecção foi curada pela primeira vez em humanos em 2004 nos Estados Unidos, por meio de um tratamento – o Protocolo de Milwaukee – que associa medicamentos antivirais e indução a um estado de coma no paciente. Desde 2008, existe um protocolo semelhante no Brasil. Esse protocolo é conhecido como o protocolo de Recife, pois foi utilizado pela primeira vez na Universidade Federal de Pernambuco. No entanto, a possibilidade de o doente sobreviver é bastante baixa.
Como evitar a raiva?
A raiva é uma doença extremamente grave. Porém, ela pode ser prevenida. A vacinação de cães e gatos é essencial para evitar que esses animais sejam contaminados. Veterinários e profissionais que têm mais risco de contato com o vírus devem tomar a vacina feita para seres humanos.
Prevenir acidentes com animais é outra medida de proteção. Por isso, nunca toque em saguis, morcegos e outros animais silvestres e evite brincar com gatos e cachorros que você não conhece. Mesmo sem sintomas, esses animais podem estar contaminados. Se você encontrar um animal caído, não toque nele e avise a vigilância epidemiológica ou o centro de controle de zoonoses do seu município.
Após um acidente com um animal – silvestre ou doméstico – lave muito bem o local com água corrente e sabão. Em seguida, procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS). De acordo com o tipo, a gravidade e o local do acidente, você pode precisar tomar vacina e soro. Esses tratamentos são gratuitos e vão impedir que o vírus desenvolva a infecção. Se possível, o animal que causou o acidente deve ser observado por dez dias para verificar se ele está contaminado com o vírus da raiva.
Também procure uma UBS se você tocar em um morcego, mesmo que ele não morda ou arranhe você.
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Fontes consultadas:
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Coimbra, Jonathan e Aleixo, Rafael. Paraense morre após contrair raiva humana no Amapá; é o 3ª caso no Brasil em 2025. G1 Pará – Belém. Disponível em: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2025/12/04/paraense-morre-apos-contrair-raiva-humana-no-amapa-e-a-3a-morte-no-brasil-em-2025.ghtml. Publicado em: 4 dez 2025. Acesso em: 18 mar 2026.
Por Miguel Oliveira e Tereza Costa