
Fig 1. O bocejo é um padrão de ação motora universal que ocorre em quase todos os vertebrados. Crédito: LindaYolanda/Getty Images
Pesquisas revelam que o bocejo pode estar ligado à atenção, ao funcionamento do cérebro e até às relações sociais. Mas nem tudo o que se acredita sobre ele é verdade
Você já deve ter bocejado durante uma aula, uma reunião ou enquanto esperava alguém chegar. Talvez até tenha bocejado só de ler a palavra “bocejo”. Apesar de ser um comportamento comum tanto dos seres humanos quanto de outros animais, ele continua intrigando cientistas.
Durante muito tempo, acreditou-se que bocejar servia apenas para indicar sono ou falta de oxigênio. No entanto, décadas de pesquisas mostram que a história é bem mais complexa. O bocejo pode sinalizar mudanças no estado de atenção do cérebro, participar da regulação da temperatura cerebral e, em algumas situações, até refletir interações sociais.
O Invivo consultou algumas pesquisas para tentar entender melhor e explicar a você a origem do ato de bocejar. Continue a leitura!
Quais são os motivos para bocejar?
Em primeiro lugar, o bocejo é um movimento involuntário caracterizado pela ampla abertura e fechamento da boca de forma lenta, acompanhada por uma respiração profunda. Em humanos, costuma durar entre quatro e sete segundos e ocorre, em média, de seis a 23 vezes por dia. Ele aparece desde antes do nascimento, já foi observado em fetos humanos com cerca de 11 semanas de gestação, além de estar presente em aves, répteis, peixes e outros mamíferos.
Embora muitas pessoas associem o bocejo apenas ao sono, ele costuma surgir em diferentes momentos de transição. É comum bocejar logo após acordar, antes de dormir, antes de apresentações importantes, durante competições esportivas ou até em momentos de tensão. Isso indica que o comportamento está relacionado a mudanças no estado de alerta do organismo, e não apenas ao cansaço.
O mito do oxigênio
Uma das explicações mais populares diz que bocejamos porque o cérebro precisa de mais oxigênio. Essa ideia parece fazer sentido, já que o bocejo envolve uma respiração profunda.
O problema é que os experimentos científicos não confirmaram essa hipótese.
Pesquisas mostraram que respirar oxigênio puro, aumentar a concentração de gás carbônico no ambiente ou até praticar exercícios físicos (situações que alteram a respiração) não modificam a frequência dos bocejos. Isso indica que os mecanismos que controlam a respiração e o bocejo são diferentes.
O cérebro pode estar tentando se reorganizar
Uma das hipóteses mais estudadas atualmente propõe que o bocejo é neurológico e ajuda o cérebro a manter um funcionamento eficiente.
Segundo essa teoria, o movimento intenso da mandíbula, a inspiração profunda e as alterações na circulação sanguínea favoreceriam uma leve redução da temperatura cerebral. Como qualquer órgão, o cérebro funciona melhor dentro de uma faixa ideal de temperatura.
Experimentos com animais e seres humanos encontraram evidências de que aumentos discretos na temperatura do cérebro costumam anteceder o bocejo e que ela tende a diminuir logo depois.
Embora essa hipótese ainda seja debatida por pesquisadores, ela reúne um conjunto crescente de evidências experimentais.
Outra possibilidade é que o bocejo contribua para aumentar temporariamente o estado de alerta, preparando o organismo para mudanças de atividade.
Por que o bocejo é contagioso?
Poucas situações são tão curiosas quanto bocejar depois de ver outra pessoa fazendo o mesmo.
Esse fenômeno é conhecido como bocejo contagioso e pode ser provocado não apenas pela observação direta, mas também por vídeos, fotografias e até pela leitura ou conversa sobre o assunto.
No entanto, isso não significa que você vai bocejar toda vez que vir alguém bocejando. Estudos estimam que entre 40% e 60% das pessoas sejam suscetíveis a esse efeito.

Fig 2. Diferente do espontâneo, o bocejo contagioso surge apenas em poucas espécies sociais (como humanos, chimpanzés e cães) e se desenvolve mais tarde na infância, geralmente após os quatro anos de idade. Crédito: Andrey Sayfutdinov/Getty Images
O bocejo contagioso é sinal de empatia?
Durante muitos anos, pesquisadores imaginaram que pessoas mais empáticas seriam também mais suscetíveis ao bocejo contagioso.
A ideia surgiu porque alguns estudos observaram maior contágio entre familiares, amigos próximos e pessoas com maior capacidade de compreender emoções alheias. Também foram encontradas diferenças em alguns grupos clínicos, como indivíduos com transtorno do espectro autista.
No entanto, pesquisas mais recentes mostram que essa relação está longe de ser definitiva.
Uma ampla revisão científica publicada em 2017 na revista Neuroscience & Biobehavioral Reviews analisou dezenas de estudos e concluiu que as evidências ainda são inconsistentes. Segundo os autores, fatores como atenção visual, contexto social e diferenças metodológicas entre os experimentos podem explicar parte dos resultados atribuídos à empatia. Eles defendem que são necessários estudos mais rigorosos antes de afirmar que bocejar junto é uma medida confiável de empatia.
Em outro estudo de 2018, pesquisadores da Suíça e da Alemanha encontraram associação entre maior empatia e maior frequência de bocejo contagioso, mas não verificaram relação com comportamentos altruístas ou pró-sociais, mostrando que a história é mais complexa do que parecia inicialmente.
Pesquisas com cães também colocaram essa hipótese em xeque. Uma revisão, publicada em 2020 na Proceedings of the Royal Society Publishing, de diferentes experimentos concluiu que, embora os cães apresentem bocejo contagioso, não há evidências consistentes de que esse comportamento seja explicado pela empatia.
O que o bocejo pode indicar?
Até o momento, a ciência aponta que o bocejo pode estar relacionado a diversos processos ao mesmo tempo.
Entre eles, estão:
• mudanças entre estados de repouso e alerta;
• reorganização da atividade cerebral;
• possível regulação da temperatura do cérebro;
• comunicação e sincronização de comportamentos em grupos, hipótese que ainda está sendo investigada.
Em outras palavras, o bocejo parece funcionar como um mecanismo biológico multifuncional, e não como um simples sinal de sono.
Mesmo sendo um comportamento observado desde antes do nascimento e compartilhado por diversas espécies, o bocejo continua sendo um dos fenômenos mais curiosos da neurociência.
Os pesquisadores ainda investigam exatamente qual é sua função principal e porque algumas pessoas são mais suscetíveis ao bocejo contagioso do que outras.
Por enquanto, uma conclusão parece segura: bocejar não significa apenas que está na hora de dormir. Pode ser um reflexo de um cérebro que está ajustando seu funcionamento diante das mudanças do ambiente — e que ainda guarda muitos mistérios para a ciência.
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Fontes consultadas:
MASSEN, J.; GALLUP, A. Why contagious yawning does not (yet) equate to empathy. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2017. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2017.07.006. Acesso: 09 jun 2026
FRANZEN, A; MADER, S; WINTER, F. Contagious Yawning, Empathy, and Their Relation to Prosocial Behavior. Journal of Experimental Psychology: General, 2018. https://doi.org/10.1037/xge0000422. Acesso: 10 jun 2026
CHAN, H.M.; TSENG, C.H. Yawning Detection Sensitivity and Yawning Contagion. i-Perception, 2017. https://doi.org/10.1177/2041669517726797. Acesso: 10 jun 2026
NEILANDS, P; CLAESSENS, S; REN, I; HASSALL, R; BASTOS, A.P.M.; TAYLOR, A.H. 2020 Contagious yawning is not a signal of empathy: no evidence of familiarity, gender or prosociality biases in dogs. Proc. R. Soc. B 287: 20192236. http://dx.doi.org/10.1098/rspb.2019.2236. Acesso: 10 jun 2026
Por Rodrigo Narciso
Data Publicação: 05/08/2026
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