Fig1. Indígena servindo refeição para homem durante visita cultural. Crédito: Getty Images

Descubra o que significa ter saúde para os povos indígenas

O que é ter saúde? Para os povos originários, esse conceito é amplo e vai muito além da ausência de doenças. Eles defendem que saúde está associada ao “Bem Viver”, ou seja, depende de um equilíbrio sensível entre a força do corpo, a alegria da alma e a conexão com a comunidade. Vamos entender mais esse conceito.

O diálogo entre duas ciências

As estratégias de atenção à saúde indígena no Brasil enfrentam o desafio de integrar o conhecimento dos povos originários ao Sistema Único de Saúde (SUS). Para Pedro Eduardo Pereira (Ka’aguasu Potiguara),  professor em escola indígena no município de Marcação na Paraíba, subsecretário de Educação, doutorando em Antropologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e conselheiro de saúde indígena, não existe hierarquia entre esses conhecimentos.

“A ciência indígena não é melhor que a ocidental, mas também não é pior”, afirma Pedro em entrevista ao Invivo. Ele observa que o aumento de doenças crônicas, como pressão alta e diabetes, tem levado as pessoas a buscarem remédios farmacêuticos, muitas vezes esquecendo-se dos recursos naturais. Para ele, a solução é a colaboração: “Se as duas ciências trabalharem de forma conjunta, a coisa funciona”.

Fig 2. Os indígenas possuem um amplo conhecimento sobre ervas medicinais. Crédito: Rodrigo Narciso

Doenças do corpo e doenças da alma

A medicina tradicional é um amplo conjunto de práticas de atenção à saúde baseado em teorias e experiências de diferentes culturas utilizadas para promoção da saúde, prevenção e recuperação. Um dos pontos centrais da medicina tradicional é a distinção entre o que afeta o físico e o que afeta o espírito. Enquanto médicos ocidentais focam em sintomas biológicos, figuras como os pajés tratam o que Pedro chama de “doenças da alma”. Esses conhecimentos são transmitidos oralmente através das gerações para garantir a continuidade da vida e do equilíbrio nas aldeias.

Em entrevista ao Invivo, Deusimar Fernandes (Uaho), bióloga do povo Desana e mestranda em História das Ciências e da Saúde na Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), reforça essa visão. Para seu povo, em São Gabriel da Cachoeira (AM), ter saúde é sinônimo de “ter força, alegria e domínio total do corpo”.

A aproximação com os centros urbanos trouxe novos dilemas, como o aumento dos casos de depressão entre indígenas. “Eu acredito que a depressão sempre existiu, mas nós não a conhecíamos com esse nome”, explica Deusimar. Segundo ela, o diagnóstico é complexo, pois os pacientes muitas vezes chegam com queixas físicas que escondem um sofrimento psicológico profundo.

Fig 3. Durvalino (Kumü Kisib), Deusimar (Uaho) e Pedro Pereira (Ka’aguasu Potiguara), durante roda de conversa sobre saúde indígena realizada na Fiocruz. Crédito: Rodrigo Narciso

Novos desafios e a saúde mental

O caminho para um atendimento mais humanizado e eficaz parece estar na formação de novos profissionais. Deusimar aponta que estamos vivendo uma transformação histórica: “Agora está se formando a primeira geração de médicos indígenas. Esses profissionais conhecem bem os dois tipos de medicina”, finalizou.

Essa nova guarda de especialistas promete ser a ponte definitiva para que o “Bem Viver” seja respeitado e fortalecido dentro das políticas públicas de saúde no Brasil.

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Por Rodrigo Narciso

Rodrigo Narciso cobriu a roda de conversa ‘Saúde das Populações Indígenas: Bem viver, Saberes, Direitos e Desafios’, realizada em abril de 2026 no Museu da Vida Fiocruz (MVF). A inciativa fez parte da ação ‘Saúde indígena: trocas de saberes por uma aliança pelo bem viver’, promovida pelo MVF e pela Cátedra Oswaldo Cruz de Ciência, Saúde e Cultura, da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), e integrou o 2º Abril Indígena da Fiocruz. A atividade contou com financiamento da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) da Fiocruz.

Data Publicação: 13/05/2026