Fig 1. Exposição à poluição atmosférica está associada a disfunções cerebrais e comprometimento cognitivo. Crédito: PeopleImages/iStock

 

Esse texto é fruto de uma chamada de artigos exclusiva para participantes da “Oficina de Jornalismo de Ciência e Saúde para Comunicadores Populares”, realizada em 19 de agosto de 2023 no Museu da Vida Fiocruz, Rio de Janeiro (RJ).

 

Efeitos da poluição do ar sobre o cérebro podem contemplar desde aumento das mortes por AVC até pior desempenho no Enem

Como a poluição do ar, também chamada de poluição atmosférica, afeta a nossa saúde? Se você pensou nas doenças respiratórias, tem toda razão. Mas sabia que respirar ar poluído também pode causar problemas em outras partes do nosso corpo? Nos últimos anos, a ciência vem se debruçando sobre o assunto e revelando que até o cérebro pode ser afetado de diversas formas pelos poluentes presentes na atmosfera.

 

Mas que poluentes são esses?

Esses poluentes do ar são gases e partículas sólidas presentes na atmosfera que podem fazer mal às plantas, aos seres humanos, a outros animais e seres vivos. Eles são chamados de compostos primários quando são gerados diretamente por fontes de emissão, como indústrias, automóveis e queimadas. Já os secundários são formados por reações químicas envolvendo esses poluentes primários e outros componentes naturais da atmosfera, como o ozônio.

Algumas dessas substâncias mesclam elementos como enxofre, monóxido de carbono, dióxido de carbono, cloretos, fluoretos e até metais pesados, como mercúrio e chumbo. Mas o maior vilão dentre eles é o material particulado (MP), em especial, os MPs finos, com até 2,5 micrômetros de diâmetro (quase mil vezes menores que 1 milímetro), como explica Beatriz Alves de Oliveira, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz). Ela é especialista em saúde pública e meio ambiente, e vem investigando os efeitos de agentes químicos, físicos e biológicos na saúde, principalmente de crianças.

O MP é composto por partículas muito finas de sólidos ou líquidos que ficam suspensas no ar. Elas são mais finas que um fio de cabelo. O MP2,5 é inalável e tem alto poder de penetração, podendo atingir até a região onde ocorre a troca de gases nos pulmões.

 

Fig 2. Automóveis e indústrias estão entre os principais emissores de poluentes atmosféricos. Crédito: Jacek Dylag/Unsplash

 

Mortes causadas pela poluição do ar têm aumentado

Os efeitos agudos decorrentes da poluição atmosférica envolvem danos no curto prazo, principalmente no sistema respiratório, como dificuldade para respirar, tosse, irritação, alergias e dor de cabeça. A longo prazo, os efeitos crônicos afetam vários sistemas do organismo, como o cérebro. Nesse caso, pode ocorrer aumento de internações e mortalidade por doenças crônicas respiratórias, cardiovasculares, endócrinas (como diabetes) e câncer de pulmão.

Segundo o estudo “Saúde Brasil 2018”, do Ministério da Saúde, houve um crescimento de 14% nas mortes causadas pelo ar poluído entre 2006 e 2016, com um salto de 38.782 mortes para 44.228. A pesquisa mostrou ainda que, considerando o grupo de doenças crônicas não transmissíveis relacionadas à poluição do ar, as doenças cerebrovasculares ocuparam o segundo lugar em número de mortes. Essas doenças são disfunções cerebrais que surgem quando os vasos sanguíneos que fornecem sangue ao cérebro são comprometidos. Fazem parte deste grupo o acidente vascular cerebral (AVC), os aneurismas, as malformações vasculares, entre outras.

 

Fig 3. A ilustração evidencia a dilatação na parede do vaso sanguíneo (semelhante a uma bolha) que caracteriza o aneurisma cerebral. O rompimento ou vazamento dessa estrutura causa sangramento e pode causar até levar à morte. Crédito: wildpixel/iStock

 

Efeitos no cérebro e na aprendizagem

Segundo a pesquisadora Beatriz de Oliveira, as evidências mostram que o material particulado fino aumenta também o risco de haver um decréscimo na função cognitiva em crianças e adolescentes, isto é, o processo relacionado à aquisição de conhecimento e aprendizagem pode ser prejudicado. A exposição pode também comprometer o sistema neurocognitivo na fase adulta e na terceira idade.

Um estudo canadense publicado em 2023 na revista internacional Environmental Health mostrou que adultos saudáveis expostos por cerca de duas horas a escapamento de óleo diesel apresentaram alteração no funcionamento do cérebro. As áreas afetadas foram principalmente a memória, a compreensão de emoções, o raciocínio e a imaginação. Após o fim da exposição, o cérebro das pessoas estudadas voltou ao normal, mas ainda falta averiguar os impactos da exposição prolongada a essas substâncias.

No Brasil, a Escola de Políticas Públicas e Governo da Fundação Getulio Vargas (FGV EPPG) relacionou a poluição do ar ao desempenho dos estudantes. Entre 2019 e 2021, a instituição monitorou o ar de mais de 10 mil escolas públicas e particulares, comparando os dados com o desempenho dos alunos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Quanto maior o índice de poluição no entorno das escolas, menor foi o desempenho observado. Os alunos que participaram do estudo registraram, em média, uma queda de 5,58 pontos no Enem a cada 10 microgramas por metro cúbico de poluentes.

 

Fig 4. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece o limite diário para material particulado fino (2,5 micrômetros) de 15 μg/m³. Crédito: pcess609/iStock

 

Como combater a poluição do ar

O biólogo Guilherme Garcia da Silveira, professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e especialista em queimadas urbanas e resíduos sólidos, lembra que, muitas vezes, as queimadas que acontecem nas cidades são negligenciadas e podem sair do controle, gerando incêndios florestais.

O professor explica que o hábito de pôr fogo é um traço cultural no Brasil. “As pessoas têm por costume queimar restos vegetais, lixo e usar o fogo para limpar o mato de terrenos, embora haja um aparato legal que proíba a prática, como a Lei de Crimes Ambientais, o Código Penal e diversas legislações municipais e estaduais”, afirma em entrevista ao InVivo.

 

Fig 5. Queimadas urbanas emitem diferentes substâncias nocivas, dependendo do material incinerado. Crédito: bjdlzx/iStock

 

Para Guilherme, o que falta para mudar essa realidade é a transformação da mentalidade das pessoas. “O que vejo [que está] em falta e que pode mudar o aspecto cultural é a educação ambiental e em saúde”, defende, criticando a limitação das iniciativas desse tipo a crianças e adolescentes, quando deveria alcançar também os adultos, que costumam ser mais resistentes a mudanças.

Na opinião de Beatriz de Oliveira, há um longo caminho a percorrer para reduzir os efeitos da poluição do ar, problema que contribui com aproximadamente 7 milhões de mortes prematuras no mundo anualmente, além de 20% da mortalidade infantil.

Eventos extremos, como a fumaça que encobriu a cidade de Manaus (AM) por diversas semanas em 2023, ajudam a chamar a atenção para a gravidade do problema, mas não podem ser a única oportunidade para o debate, segundo Beatriz: “Precisamos de ações intersetoriais baseadas em regulações e fiscalizações firmes para que as fontes reduzam a emissão de poluentes”. Tudo isso, complementa, deve ser acompanhado por um sistema preciso de monitoramento da qualidade do ar que permita quantificar a redução de poluentes ao longo do tempo. Para a pesquisadora, o esforço deve unir as áreas de saúde, meio ambiente, cidades, infraestrutura, planejamento e agricultura.

 

Confira outros conteúdos sobre cérebro:

Cérebro sarado: os efeitos do exercício físico na saúde cerebral

Psicobióticos: mente e microrganismos vivos

Sinestesia: experiências sensoriais cruzadas

Teoria da Mente: compreendendo as intenções dos outros

 

 

Fontes consultadas:

GAYRYLUK J. R. et al. Brief diesel exhaust exposure acutely impairs functional brain connectivity in humans: a randomized controlled crossover study. Environmental Health, v. 1, n. 22, 7. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s12940-023-00961-4. Acesso em: 17 dez 2023

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde. Saúde Brasil 2018: uma análise de situação de saúde e das doenças e agravos crônicos: desafios e perspectivas. Brasília: Ministério da Saúde, 2019. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/saude_brasil_2018_analise_situacao_saude_doencas_agravos_cronicos_desafios_perspectivas.pdf. Acesso em: 17 dez 2023

FRANÇA, Valéria. Poluição nas escolas baixa nota no Enem. Veja, São Paulo, 02 out. 2023. Disponível em: https://veja.abril.com.br/educacao/poluicao-nas-escolas-baixa-nota-no-enem. Acesso em: 17 dez 2023

CORRÊA, Gabriel. Fiocruz Amazônia recomenda máscara em Manaus devido à poluição. Rádio Agência Brasil . Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/meio-ambiente/audio/2023-10/fiocruz-amazonia-recomenda-mascara-em-manaus-devido-poluicao. Publicação: 12 out 2023. Acesso: 17 dez 2023

 

Por Douglas Mota

Data Publicação: 01/04/2024