
Fig 1. Atualmente, pessoas com diabetes podem utilizar diferentes formas de administração de insulina, entre elas, canetas, seringas e bombas de infusão. Crédito: Milko/Getty Images
Veja como a descoberta da insulina no século 20 contribuiu para reduzir a mortalidade e as complicações associadas ao diabetes
É provável que você já tenha ouvido falar em insulina, um hormônio produzido pelo pâncreas que controla a quantidade de glicose (açúcar) no sangue. Mas você sabia que a descoberta dessa substância no século 20 representou um marco tanto para a ciência quanto para a saúde pública? Afinal, ela foi o primeiro medicamento eficaz contra o diabetes a ser descoberto, tornando-se uma das principais aliadas no controle desta doença que afeta mais de 800 milhões de pessoas em todo o mundo.
O que é o diabetes?
O diabetes que ocorre com mais frequência no mundo é o diabetes mellitus, uma doença crônica caracterizada pela elevação da glicose no sangue. A doença é caracterizada pela incapacidade do corpo de produzir insulina ou por uma dificuldade em utilizar de forma adequada a insulina que o pâncreas produz.
Existem vários tipos de diabetes mellitus, entre eles, o diabetes tipo 1, que é uma doença autoimune, na qual o sistema de defesa do corpo ataca as células do pâncreas, impedindo a produção da insulina. Já no diabetes tipo 2 o corpo passa a não produzir quantidades suficientes de insulina ou as células do organismo deixam de reagir de forma adequada a este hormônio (resistência insulínica). Em geral, o diabetes tipo 2 é causado por diversos fatores, sendo um dos mais comuns o excesso de gordura corporal.

Fig 2. A digestão transforma alguns nutrientes dos alimentos em glicose. Em pessoas sem diabetes (amarelo), a produção adequada de insulina pelo pâncreas possibilita que a glicose seja utilizada nos músculos como fonte de energia para contração e movimento. Já no diabetes mellitus (rosa), o músculo não consegue utilizar a glicose devido à produção insuficiente de insulina (tipo 1) ou em função da baixa produção de insulina ou resistência insulínica (tipo 2). Crédito: VectorMine/ Getty Images/adaptado por Invivo
Além desses tipos, existe ainda o diabetes gestacional, que ocorre quando os níveis de açúcar no sangue se elevam durante a gravidez. Nesse caso, a mulher não possuía diabetes antes de engravidar, mas passa a apresentar o quadro durante a gestação.
Além de todos esses tipos de diabetes mellitus, existe ainda o diabetes insipidus, que é uma condição mais rara e que não envolve aumento da quantidade de açúcar no sangue. O que caracteriza essa forma da doença é a incapacidade dos rins de concentrar a urina adequadamente. As principais semelhanças entre o diabetes mellitus e diabetes insipidus são a produção excessiva de urina e a sede intensa.
A descoberta da insulina
Casos de diabetes já são registrados há muitos séculos em todo o mundo, mas o relato mais antigo foi identificado em um papiro descoberto no Egito no século 19. Cientistas acreditam que este documento, que já cita um caso com sinais e sintomas característicos do diabetes, foi criado em torno de 1500 AC.
Ao longo dos anos, o conhecimento acerca da doença foi aumentando. Uma descoberta importante foi a identificação do caráter adocicado da urina de pacientes com diabetes. Médicos de diferentes países chegaram a essa conclusão a partir da observação de que havia mais formigas e moscas em volta da urina dessas pessoas, mas a teoria só foi confirmada a partir de estudos feitos na Inglaterra nos séculos 17 e 18.
Mas por que a urina das pessoas com diabetes mellitus é doce? Nas pessoas que têm essa doença, os rins não conseguem reabsorver o excesso de açúcar do sangue. Assim, em vez de todo o açúcar voltar para a corrente sanguínea, parte dele acaba sendo liberado na urina.
O tempo passou, novos estudos vieram e, em maio de 1921, cientistas começaram os experimentos que possibilitaram a produção da primeira insulina sintética. À frente das pesquisas, estava o cirurgião canadense Frederick Banting (1891-1941), que contava com o auxílio do então estudante de medicina Charles Best (1899-1978).
A dupla de pesquisadores trabalhava com cães que foram induzidos em laboratório a desenvolver diabetes. Eles aplicaram extrato pancreático nos animais e observaram que a quantidade de açúcar no sangue dos cães reduziu. A pesquisa foi supervisionada pelo médico escocês John Macleod (1876-1935) e foi desenvolvida em seu laboratório na Universidade de Toronto, no Canadá.

Fig 3. As conquistas dos pesquisadores canadenses Banting e Best em relação à insulina foram noticiadas na primeira página do Toronto Daily Star noticiou em maço de 1922. Crédito: Wikimedia Commons/Picrly
Após o sucesso do experimento em modelo animal, o extrato pancreático foi aplicado em um paciente com diabetes, porém ele apresentou efeitos colaterais que fizeram o teste clínico ser interrompido.
Mas pouco tempo depois, o bioquímico canadense James B. Collip (1892-1965), conseguiu purificar a substância contida no extrato pancreático. Assim, em 1922, a substância purificada foi novamente testada em um ser humano e conseguiu reduzir a quantidade de açúcar no sangue do paciente diabético.
A substância em questão ganhou o nome de insulina por ser produzida por pequenas estruturas do pâncreas chamadas de ilhotas de Langerhans (em latim ‘insula’ significa ‘ilha’).
O medicamento representou um importante avanço porque, antes dele, as pessoas com diabetes eram tratadas apenas com uma dieta tão rigorosa, que, muitas vezes, era tão letal quanto à doença.
Isso porque, especialmente, para pessoas com diabetes mellitus tipo 1, o diagnóstico com frequência era uma sentença de morte.
A insulina passou a ser produzida por farmacêuticas em 1923. Inicialmente, ela era produzida a partir de extratos pancreáticos de bois e porcos.
Uma nova era para a insulina
A partir da década de 1970, o processo de purificação da insulina foi sendo aprimorado, mas ainda era necessário usar extratos pancreáticos de animais. Para termos uma ideia da complexidade do processo, segundo dados da agência americana Food and Drug Administration (FDA), em 1981, a produção de 500g de insulina exigia o uso de glândulas pancreáticas de 23.500 animais. No entanto, a insulina resultante só era suficiente para tratar 750 pacientes com diabetes por um ano.
Como a produção em larga escala da insulina representava um desafio, cientistas já vinham estudando alternativas para o processo. E, em 1982, a primeira insulina humana recombinante foi aprovada nos Estados Unidos. Em vez de ser extraída de animais, ela passou a ser sintetizada em células de bactérias que receberam em laboratório genes humanos responsáveis pela produção desse hormônio.
Em paralelo, foram surgindo outros avanços ao longo do tempo, por exemplo, insulinas de ação mais prolongada, que contribuíram para a redução no número de injeções usadas pelos pacientes. Também surgiram as bombas de insulina, isto é, dispositivos portáteis de liberação de insulina, as canetas, que facilitaram a autoadministração do medicamento, e análogos de insulina, que são versões modificadas em laboratório da insulina que possibilitam uma liberação mais precisa do medicamento.
Outros avanços no mercado foram os dispositivos de automonitoramento da glicose, que vem sendo melhorados desde 1970. E surgiram ainda novas opções de tratamento, que vão além da insulina, para o diabetes tipo 2, principalmente, a partir dos anos 2000.

Fig 4. Os glicosímetros são aparelhos portáteis usados para medir os níveis de açúcar no sangue. O modelo tradicional funciona a partir da leitura dos níveis de açúcar em uma pequena amostra de sangue coletada por meio de uma picada no dedo com uma lanceta. Crédito: Courtney Hale/Getty Images
Insulina no Brasil
O Sistema Único de Saúde (SUS) fornece tratamento gratuito a pessoas com diabetes, o que inclui a oferta de insulina. Mas apesar do Brasil já ter produzido insulina ao longo de sua história, o país ficou 20 anos dependendo exclusivamente da compra de produtos estrangeiros. Apenas em 2025, voltamos a produzir o medicamento em solo nacional.
A iniciativa do Ministério da Saúde que levou a retomada da produção de insulina no país envolve uma parceria entre a Fundação Ezequiel Dias (Funed), a empresa brasileira Biomm e a farmacêutica indiana Wockhardt, que fez a transferência da tecnologia.
Além disso, também em 2025, a pasta aprovou a produção de insulina de ação prolongada, a partir de um projeto que reúne Bio-Manguinhos (Fiocruz), a empresa Biomm e farmacêutica chinesa Gan & Lee.

Fig 5. Planta de produção de insulina da empresa Biomm, em Nova Lima/MG. Crédito: Ricardo Stuckert/PR/Foto Agência EBC
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Fontes consultadas:
Organização Mundial da Saúde (OMS). Diabetes. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/diabetes. Publicação em: 14 nov 2024. Acesso em: 17 jun 2026.
Núcleo de Telessaúde Rio Grande do Sul. Como ocorre o desenvolvimento de diabetes tipo 1 e 2 no organismo humano? Biblioteca virtual em saúde Atenção Primária em Saúde. Disponível em: https://aps-repo.bvs.br/aps/gostaria-de-saber-mais-informacoes-sobre-como-ocorre-o-desenvolvimento-de-diabetes-tipo-1-e-2-no-organismo-humano/. Publicado em: 16 dez 2009. Acesso em: 17 jun 2026.
NIH. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Diabetes Insipidus. Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/health-information/kidney-disease/diabetes-insipidus. Acesso em: 17 jun 2026.
Tschiedel, Balduíno. A História do Diabetes. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Disponível em: https://www.endocrino.org.br/2014/06/17/a-historia-do-diabetes/. Acesso em: 17 jun 2026.
Fioravanti, Carlos. A descoberta da insulina. Revista Pesquisa Fapesp. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/a-descoberta-da-insulina/. Publicação em: abrl 2021. Acesso em: 17 jun 2026.
Capomaccio, Sandra. Descoberta da insulina, há 100 anos, propiciou avanços no tratamento da diabete. Jornal da USP. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/descoberta-da-insulina-ha-100-anos-propiciou-avancos-no-tratamento-do-diabetes/. Publicação em: 31 mai 2021. Atuializado em: 07 jul 2024. Acesso em: 17 jun 2026
U.S Food & Drug Administration. 100 Years of Insulin. Disponível em: https://www.fda.gov/about-fda/fda-history-exhibits/100-years-insulin. Publicação em: 6 ago 2022. Acesso em: 17 jun 2026
International Diabetes Federation. Insulin. Disponível em: https://idf.org/managing-diabetes/insulin/. Acesso em: 17 jun 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Após 20 anos, Brasil retoma produção de insulina em iniciativa conduzida pelo Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/julho/apos-20-anos-brasil-retoma-producao-de-insulina-em-iniciativa-conduzida-pelo-ministerio-da-saude. Publicação em: 11 jul 2025. Atualização em: 23 jul 2025. Acesso em: 17 jun 2026
Por Teresa Santos
Data Publicação: 26/06/2026
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