
Fig 1. Vista do Castelo da Fiocruz antes da abertura da Avenida Brasil. Data: 1918–1940. Crédito: Acervo COC/Fundo Instituto Oswaldo Cruz
Conheça a história e os caminhos que transformaram a Fundação Oswaldo Cruz ao longo do tempo
Estamos acostumados a pensar que as instituições públicas, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), surgem no dia em que são criadas. Mas a história tem muito mais a nos contar. Será que a Fiocruz que existe hoje é fruto apenas daquele pequeno instituto criado para produzir soros contra a peste bubônica no início do século 20? Ou, dito de outra forma, será que uma instituição nasce apenas uma vez?
Por que as origens nos fascinam?
Os seres humanos tendem a atribuir às origens um significado especial. As origens ajudam a organizar a maneira como comunidades interpretam sua própria trajetória e funcionam como referências para compreender o presente.
Quando olhamos para o passado, muitas vezes temos a tendência de simplificar tudo o que aconteceu como se fosse parte de uma única história. E, às vezes, o sentido dessa história não era claro para quem estava vivendo tudo isso na época.
Instituições centenárias e cercadas por personagens marcantes, como a Fiocruz, muitas vezes passam a ser vistas de uma forma que vai além dos fatos históricos propriamente ditos. Assim, perceber os conflitos, as incertezas e as transformações que ocorrem durante o processo de consolidação dessas instituições pode ser um desafio.
As instituições mudam à medida que enfrentam novos problemas, incorporam novas funções, respondem a demandas sociais e estabelecem relações com diferentes grupos e projetos. Compreendê-las exige olhar não apenas para o momento em que surgiram, mas também para as transformações que enfrentam.
Conhecendo a história da Fiocruz
Talvez a história da Fiocruz mereça ser observada como uma viagem por alguns momentos de transformação.
E, nosso embarque é em 1899, antes mesmo de a Fiocruz existir. Naquele ano, o jovem médico Oswaldo Cruz buscava construir sua carreira em um mundo onde a microbiologia transformava a compreensão das doenças.
A viagem passa em seguida pela chegada da peste bubônica ao porto de Santos e pelos desafios enfrentados para transformar um problema sanitário em uma resposta governamental.
E a jornada segue acompanhada por alguns desafios, sendo um deles o questionamento sobre a instalação de um Instituto numa região de manguezais no subúrbio do Rio de Janeiro. Além disso, havia dúvidas sobre as atribuições do local: seria uma fábrica de soros, um laboratório de pesquisas ou assumiria funções que ninguém poderia antecipar naquele momento?

Fig 2. Laboratório do Instituto Soroterápico. Data: [1900 – 1905]. Crédito: Acervo COC/Fundo Instituto Oswaldo Cruz
Viagens, avanços científicos e mais!
Se naquela época não era possível saber o destino dessa jornada, agora, sabemos que a trajetória foi (e continua sendo) intensa! Ao longo desse percurso, alguns pesquisadores decidiram sair em viagens pelo interior do país, mas também tinha muita pesquisa sendo feita dentro do próprio campus de Manguinhos. Vamos descobrir como os resultados desses estudos eram compartilhados e veremos como ocorreu a formação de coleções que preservaram organismos. Também vamos saber mais sobre a produção de documentos e registros de pesquisas e discutiremos como exposições ajudaram a apresentar parte desse conhecimento para públicos mais amplos.
Por essa razão, a história dificilmente pode ser reduzida a uma sequência de datas ou à execução de um plano previamente definido. O que observamos são processos nos quais diferentes grupos procuram responder a problemas concretos, muitas vezes sem saber exatamente quais serão as consequências de suas escolhas. Aquilo que hoje aparece como resultado consolidado dificilmente poderia ser previsto por quem participou daqueles acontecimentos. Respostas construídas em determinado momento abriram novos desafios, novas possibilidades de atuação e novos caminhos.
O instituto criado para produzir soros contra a peste bubônica em 1900 não carregava em si, de forma evidente, os contornos da instituição que conhecemos hoje. Nada indicava, naquele momento, quais projetos ganhariam força, quais ideias encontrariam apoio suficiente para prosperar ou quais problemas exigiriam novas respostas ao longo do tempo.

Fig 3. Medicamentos em processo de embalagem. J. Pinto. Data: 1930. Crédito: Acervo COC/ Fundo Instituto Oswaldo Cruz
Os laboratórios ainda estavam sendo organizados. As formas de atuação institucional permaneciam em disputa. Nem mesmo o papel que aquela instituição desempenharia nas décadas seguintes estava claramente definido. Questões que hoje parecem naturais — como a realização de pesquisas, a formação de especialistas, a constituição de coleções científicas ou a participação em políticas públicas de saúde — ainda dependiam de escolhas, investimentos e disputas que estavam em curso.
O que vem pela frente

Fig 4. Iluminação Monumental em anoitecer outonal. Data: 30/03/2026. Crédito: Bruno Mussa Cury
Ficou curioso? Calma! Vamos saber mais sobre essa história no próximo texto da série ‘Os caminhos da Fiocruz’. Mas em vez de percorrer uma cronologia tradicional, os próximos textos partirão de algumas perguntas. O que faz alguém ser chamado para enfrentar uma epidemia? Como uma epidemia pode ser a centelha para a criação de uma instituição? Uma fábrica de soros ou um instituto científico? O que o trânsito entre Manguinhos e a Diretoria Geral de Saúde Pública tem a ver com os rumos da ciência no Brasil? Como trabalhos de campo se transformam em conhecimentos duradouros? O que acontece com os objetos da pesquisa depois do trabalho de campo? Quando a ciência produzida em laboratório passa a ser também objeto de exposição? Como uma instituição atravessa crises? E, por fim, o que faz da Fiocruz uma instituição estratégica para o Brasil?

Fig 5. Laboratório de produção de vacinas, Biomanguinhos. Crédito: Peter Ilicciev/Acervo Fiocruz Imagens
Perguntas aparentemente simples. Mas capazes de revelar que a história de uma instituição não é feita apenas de fundações, datas e personagens célebres. Ela também é construída pelas conexões que se estabelecem, pelas disputas que se travam, pelos problemas que mobilizam diferentes atores e pelas transformações que continuam produzindo efeitos muito tempo depois de seu surgimento.
As respostas talvez não estejam na fundação, mas nos caminhos abertos desde então. É por eles que seguiremos nas próximas matérias desta série.
Saiba mais:
150 anos de Oswaldo Cruz: um cientista em sete tempos
Massacre de Manguinhos: a ciência brasileira sob ataque
Fontes consultadas:
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1996.
LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: Editora Unesp, 2000.
BENCHIMOL, Jayme Larry (Coord.). Manguinhos do sonho à vida: a ciência na Belle Époque. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2020.
CUKIERMAN, Henrique Luiz. Yes, nós temos Pasteur: Manguinhos, Oswaldo Cruz e a história da ciência no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará; FAPERJ, 2007.
Por Bruno Mussa Cury
Data Publicação: 17/06/2026
- história da ciência
- Série 'Os caminhos da Fiocruz'
Tags Relacionadas: